Título: Em 16 meses, gestão consolidou BNDES como banco de fomento
Autor: Arnaldo Galvão
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2006, Especial/ Mudança ministerial, p. A5

A gestão de Guido Mantega no BNDES não foi tão barulhenta quanto a de Carlos Lessa, mas manteve a instituição no mesmo caminho que seu antecessor tinha traçado, consolidando o BNDES como banco de fomento e não um banco de investimento. Nos 16 meses meses à frente do banco, Mantega deu prioridade à redução do custo do dinheiro para o tomador, baixando o spread básico médio de 2% para 1,4%, e criou uma linha de juro fixo de 6% ao ano para projetos de inovação. O novo presidente do banco, Demian Fiocca, deve seguir a linha de Mantega, de quem era vice-presidente. Outra novidade foi a criação de uma superintendência de mercado de capitais, que teve êxito no lançamento do Papel Índice Brasil Bovespa II (PIBB II) na bolsa paulista, voltado para pessoa física, cujas cotas foram disputadas por 120 mil pequenos investidores. O BNDES levantou R$ 2,5 bilhões com a oferta. E agora, pela primeira vez em sua história, o banco se prepara para lançar títulos no mercado doméstico para ampliar suas fontes de recursos. Na área de infra-estrutura, a instituição mirou os gargalos na área ferroviária e deu apoio a projetos estruturantes do setor no Nordeste, como a Nova Transnordestina. E entrou como sócio na Brasil Ferrovias, decisão encarada pelo mercado como "operação-hospital". Como seu antecessor, Mantega não cumpriu o orçamento para investimentos de R$ 60 bilhões em 2005, tendo liberado R$ 47 bilhões, dos quais 41% para a indústria e 13% para a infra-estrutura. O número de grandes projetos aprovados ainda foi modesto nesta administração: R$ 2,5 bilhões de expansão da produção de celulose da Bahia Sul, do grupo Suzano; R$ 1,3 bilhão para a TIM Celular, R$ 974 milhões para exportações da Sadia e R$ 800 milhões para o gasoduto da Petrobras na Amazônia. O financiamento ao setor público não foi destravado e nem foram reduzidas as desigualdades regionais. No âmbito regional, o Sudeste continuou recebendo a maior parte dos desembolsos em valores absolutos (R$ 28,7 bilhões). Como Lessa, Mantega fracassou nas negociações para capitalizar o BNDES junto ao Tesouro Nacional e à equipe econômica. Outro insucesso foi não ter conseguido reduzir a TJLP para níveis considerados palatáveis pelo empresariado - entre 8% e 7% ao ano. Apenas no final de 2005 a TJLP declinou de 9,75% (percentual que vigorou durante todo o ano de 2005) para 9% no primeiro trimestre deste ano e que pode ser revisto ainda esta semana. Para Mantega, o alto custo do dinheiro do banco em 2005 (entre 13% e 15% ao ano com spreads) respondia em parte pela retração da demanda de crédito do setor privado, que optava por captar dinheiro mais barato no exterior, num cenário internacional de alta liquidez. Os confrontos com o Banco Central e o Tesouro levaram o agora ministro da Fazenda a atacar o secretário Joaquim Levy, em evento ocorrido no banco em outubro do ano passado, quando este propôs maior convergência entre as taxas de juro no país (Selic e TJLP). A proposta de Levy foi taxada por Mantega de "choque antiinvestimento" e "um golpe fatal no PIB".