Título: Pouco espaço para acelerar o crescimento
Autor: Arnaldo Galvão
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2006, Especial/ Mudança ministerial, p. A5

A opção de manter a política econômica do antecessor Antonio Palocci dá pouca margem de manobra ao novo ministro da Fazenda Guido Mantega se ele quiser abrir espaço para um crescimento mais acelerado da economia ainda este ano. Ou os instrumentos para isso não são de sua exclusiva responsabilidade (como uma queda mais acelerada da taxa básica de juros), ou eles já estão sendo usados no limite, como uma expansão de gastos públicos sem prejuízo do superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB). Além da falta de instrumentos adequados dentro do tripé atual - metas de inflação, austeridade fiscal e câmbio flutuante -, também faltaria tempo para que eventuais medidas resultassem em mais crescimento, observam economistas ouvidos pelo Valor. Há, porém, uma novidade na condução da economia: haverá maior sintonia entre Fazenda, Desenvolvimento, Casa Civil e Itamaraty. As tensões tendem a desaparecer. Para alguns, isso pode ser ruim. "Há uma maior unidade de pensamento, não necessariamente na direção correta", observa o ex-secretário de Política Econômica Edward Amadeo. A aliança entre Fazenda e Casa Civil pode resultar em menor aperto fiscal (sempre mantida a economia de 4,25% do PIB), enquanto a nova gestão da Fazenda comunga da posição do Desenvolvimento e do Itamaraty de rejeitar um corte unilateral de tarifas de importação. Para Amadeo, essa medida elevaria as compras no exterior e permitiria maior desvalorização do real. "Mas é o tipo de política que o Mantega não faria", avalia. "O ministro será uma voz mais ativa na questão cambial", observa Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Mas ele não espera mudanças, nem uma desvalorização mais acentuada. No máximo, diz, a Fazenda poderia incentivar um pouco mais de intervenção no câmbio. O diretor do Iedi vislumbra um câmbio a R$ 2,35 alguns meses a frente. "Para a indústria ainda é pouco, mas já ajudaria". madeo diz que a margem de manobra de Mantega é ainda menor porque ele precisa, primeiro, convencer o "mercado" de que não fará mudanças de rumo. "Ele terá que pagar um pedágio", observa. O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Associados, descarta mudanças na política econômica no curto prazo. Ele afirma que o governo já tem folga para cumprir o superávit de 4,25% do PIB. Na política monetária, será difícil escapar do gradualismo do Banco Central no corte da taxa de juros. "O grupo que está no BC é independente e tem muita personalidade", afirma. Mendonça de Barros avalia que Mantega terá dois grandes testes para demonstrar se continua firme em suas convicções: a definição da nova TJLP, amanhã, e, principalmente, a próxima reunião do Copom. "Dificilmente a TJLP vai cair tanto quanto Mantega gostaria", afirma. Para o economista, a incerteza que aflige os mercados está no longo prazo. A escolha de Mantega, um economista alinhado com uma visão mais heterodoxa, traz incertezas sobre os rumos da política econômica em um eventual segundo mandato de Lula. O economista Paulo Nogueira Batista, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), também não acredita em mudanças significativas da política econômica, mas aposta em "uma mudança de ênfase" com a entrada de Mantega na Fazenda. Ele explica que essa mudança começou na gestão Palocci e enumera algumas medidas: aumento mais expressivo do salário mínimo, redução da TJLP, queda do superávit primário efetivamente praticado em um esforço para gastar mais, início do corte da taxa de juros e incentivos fiscais para alguns setores. "O perfil de Mantega é de um homem do presidente, sem projeto político próprio. Mas ele fará essas pequenas mudanças com mais satisfação do que a equipe de Palocci", afirma Batista. Para o economista Ricardo Carneiro, da Unicamp, a entrada de Mantega na Fazenda melhora a relação dos ministros da área econômica do governo Lula. "O Palocci sempre deu mais do que o mercado pediu. Foi uma gestão ultra-conservadora", afirma. Carneiro acredita que a gestão de Mantega "terá uma preocupação mais clara com o crescimento, mas está longe de alcançar mudanças radicais". O economista avalia que o novo ministro pode pressionar o BC a reduzir mais rápido a taxa de juros e estabilizar o câmbio, mas tem pouco espaço para alterar a política fiscal. Carneiro descarta a possibilidade de o governo adotar hoje uma política de desenvolvimento consistente e de longo prazo.