Título: Mantega diz que não pensa no 2º mandato
Autor: Arnaldo Galvão
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2006, Especial/ Mudança ministerial, p. A5
Manter a política econômica e a trajetória de crescimento sustentado, sem pensar em um segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essa é a principal mensagem que o novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, procurou passar em sua primeira entrevista coletiva. Sergio Lima / Folha Imagem Guido Mantega, novo ministro da Fazenda, na primeira entrevista coletiva: "Reduzir o superávit primário não ajuda em nada para acelerar o crescimento" Ele assegurou, logo após a cerimônia de posse no Palácio do Planalto, que o regime de taxas de câmbio flutuante permanecerá, assim como a meta de superávit primário de 4,25% do PIB, embora, como assinalou, o superávit médio que vem sendo praticado desde 2003 é de 4,6% do PIB. "Reduzir o superávit primário não ajuda em nada para acelerar o crescimento. Isso só traz insegurança. Vamos manter o que tem sido feito. Mudar esse quadro é difícil até mesmo para outro governo", explicou. Ele descartou a adoção de um pacote de redução de alíquotas de importação, como chegou a ser imaginado pela equipe anterior, como forma de ampliar a abertura comercial e reduzir a valorização da moeda doméstica. A atual taxa de câmbio, segundo o ministro, já significa, na prática, uma redução de barreiras à importação. "O governo se reserva o direito de baixar as alíquotas em alguns setores cujos preços estejam acima do razoável", explicou. Para Mantega, o regime de câmbio flutuante é uma modalidade mais eficiente e as políticas de câmbio fixo são "aventuras que não deram certo". O sucesso do comércio exterior traz mais dólares, o que valoriza a moeda brasileira. Esse é o preço do sucesso das exportações, afirmou. A redução dos juros também vai provocar impacto no câmbio, disse o ministro. Esse movimento diminui o espaço para a arbitragem e, por outro lado, volta a beneficiar a importação de alguns itens. "Não precisamos de um saldo comercial de US$ 45 bilhões, como foi no ano passado. Fico contente com algo perto dos US$ 35 bilhões. O que importa é a corrente de comércio. Não há pressão vendedora no mercado futuro de dólar. Acredito que o câmbio chegou ao seu piso", disse. Mantega negou a existência de qualquer "mal estar" entre ele e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Disse que eles devem encontrar-se ainda nesta semana e que o convívio é cordial e muito civilizado até nos momentos de divergência. Sobre a condução da política monetária, o ministro afirmou que os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC vêm, há seis reuniões seguidas, reduzindo a taxa básica de juros, o que significa que estão na direção correta. "A boa notícia é que 2006 já começou com crescimento vigoroso, estimulado pela redução dos juros. Não sei se é algum pecado mexer na dosagem. Graduações são legítimas na execução de políticas econômicas", afirmou. Se não há grandes diferenças na avaliação dos fundamentos macroeconômicos, em algumas questões pontuais, porém relevantes, há posições diferentes. O ministro da Fazenda acha que estão presentes as condições para uma boa redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), atualmente em 9% ao ano. Disse que influenciam na sua composição o risco-país e a expectativa de inflação. "A tendência é de ela ser reduzida", informou. Mas admitiu que, quando "estava do lado de lá", pressionava pela queda da TJLP. Agora, ocupando o cargo de ministro da Fazenda e presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN), tem de chegar ao consenso com seus colegas: o ministro do Planejamento e o presidente do BC. Novamente falando sobre a política de juros, Mantega negou que seja um crítico da política monetária. Disse que apóia o regime de metas de inflação e que o problema que ele levantou no ano passado foi a respeito do zelo excessivo do Copom. "Eles já estão reparando o erro. Estão na rota correta. A sintonia é no ponto maior da política. Pode haver uma discordância na dosagem", esclareceu. A queda dos juros também terá impacto positivo na redução da relação dívida/PIB. Mantega disse que os juros já estão caindo e voltou a prever que a economia este ano vai crescer bem mais que no ano passado, algo entre 4% e 5% neste ano. O ministro descartou a adoção de um plano fiscal de longo prazo como foi defendido pelo seu antecessor Antonio Palocci e pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Em um desgastante processo que enfrentou resistência pública da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, Palocci e Bernardo recomendaram que o governo adotasse um compromisso de reduzir gradativamente as despesas correntes. "Não há plano fiscal de longo prazo. Nossa política fiscal já é austera. Somos responsáveis e gastamos adequadamente os recursos dos contribuintes", afirmou. De acordo com Mantega, com exceção dos secretários de Palocci que já anunciaram a saída do ministério (Murilo Portugal, secretário-executivo, e Joaquim Levy, secretário do Tesouro) ele pediu "a toda equipe que seguisse trabalhando" até que pudesse conversar com cada um para discutir a permanência ou não no Ministério da Fazenda. "Ainda não tive tempo para fazer convites", explicou.