Título: Política econômica não deve mudar com Mantega
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2006, Opinião, p. A14

A demissão do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, põe fim à longa agonia do homem forte da economia do governo Lula. Até a quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa, as acusações contra Palocci voltavam-se mais para seu passado de prefeito em Ribeirão Preto e traziam vagas suspeitas de tentativas de favorecimento de terceiros em sua gestão na Fazenda. Mas a operação em que Palocci e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, se envolveram, embora todos seus detalhes não estejam claros, ultrapassou abertamente os limites legais. Lula optou por demitir o último integrante do "núcleo duro" de sua equipe original por desrespeito às normas do "Estado de direito", como disse o senador Aloizio Mercadante, a quem coube comunicar a decisão do presidente. Com a saída de Palocci, há duas zonas de turbulência no horizonte. No campo político, o grave erro da quebra ilegal do sigilo deu ânimo à oposição, que, desde o surgimento das denúncias do mensalão, há quase dez meses, virtualmente paralisou o Congresso. Há uma CPI em funcionamento, a dos Bingos, e o objetivo explícito de tucanos e pefelistas é fustigar os supostos pontos frágeis do presidente. Um deles é esmiuçar o pagamento de uma de suas contas por Paulo Okamoto, atual presidente do Sebrae. O outro é averiguar os meandros do investimento da Telemar em empresa de um dos filhos de Lula. É impossível saber o que pode resultar dessas investidas, mas talvez o relatório da CPI dos Correios possa dar uma idéia do que está por vir. Com a absolvição dos deputados comprovadamente ligados ao recebimento de dinheiro do "valerioduto", e com o "perdão" dado pelo Senado ao ex-governador tucano Eduardo Azeredo, que se beneficiou do uso do mesmo dinheiro, é provável que a CPI chegue a conclusões "desidratadas", no jargão dos deputados. As culpas somem no limbo de suspeitas não devidamente comprovadas, mas com elas também se esvaem boa parte das denúncias contra o governo. O desgaste eleitoral de Lula, após dez meses de mensalão, como ficou claro, beira a irrelevância. As incertezas potenciais são maiores no front da economia. Palocci foi o principal articulador e o responsável pela política atual, à qual defendeu com competência contra membros do governo e de quase todas as correntes do PT descontentes com ela. É óbvio que um ministro não é o "fiador" de sua própria política, assim como não se concebe um presidente que não seja o "fiador" da política econômica. O trabalho de Palocci foi convencer Lula de que seus objetivos eram melhores do que outras opções defendidas dentro do governo. Lula arbitrava. Os trunfos da política econômica, que segue em seu rumo geral a praticada pelo governo tucano antecessor, são em grande parte frutos da persistência e determinação do ex-ministro da Fazenda, assim como o erro do excessivo conservadorismo da política monetária. A saída de Palocci fortalece a ala governista que se sente desconfortável com o atual superávit primário e com as metas de inflação e desequilibra as relações de forças que influem no Planalto. Mas, diante de uma dura batalha nas urnas, Lula não deverá mudar os pilares da política econômica, sob pena de sepultar um de seus maiores cacifes eleitorais - o crescimento da economia e dos empregos. A escolha de Guido Mantega para a Fazenda visa garantir a transição tranqüila para um segundo mandato, e não mais do que isso. Mantega foi um dos autores dos programas econômicos do PT que assustaram o mercado, antes da Carta aos Brasileiros, com a qual Lula pavimentou a rota da vitória. É também um quadro disciplinado do partido e esteve longe de ser um crítico estridente da guinada do governo. Ele tem reparos pontuais à política de Palocci, que, a julgar pela entrevista de ontem, após sua posse, poderão ser arquivadas sem sobressaltos. A desmontagem parcial e voluntária da equipe de Palocci - saíram do governo Murilo Portugal, Marcos Lisboa e Joaquim Levy - trouxe apreensão moderada aos mercados no "day after". Ainda assim, ela se resumiu a uma alta do dólar e pequena oscilação para cima no risco-país. A grande incógnita é a permanência ou não da equipe do Banco Central, cuja orientação foi criticada por Mantega. O destino eleitoral de Lula, no momento, joga a favor da manutenção do conservadorismo, pelo menos até o veredito das urnas. Ele voltou a ressaltar ontem que "em economia não há mágica".