Título: Dívidas travam "socorro" ao campo
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, Brasil, p. A5
Em estudo desde o início do mês, o pacote de socorro ao setor rural, que estava prestes a sair, "travou" com a recusa do governo federal em renegociar dívidas já roladas por meio dos programas de securitização e de saneamento de ativos (Pesa) entre 1995 e 1998. A rolagem destas dívidas, estimadas em R$ 7,7 bilhões, é o principal ponto de discórdia nos bastidores do governo. O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, não conseguiu convencer a equipe econômica a aceitar uma nova repactuação. Neste ano, vencem parcelas de R$ 250 milhões em dívidas da securitização e de R$ 360 milhões do Pesa. Os dois programas têm taxa de inadimplência próxima de 30%, estimam os bancos. Em conversa com a bancada ruralista, Rodrigues admitiu ontem que "está difícil avançar" nessa repactuação. O governo admite prorrogar somente as dívidas de custeio e dos programas de investimento. E com condicionantes para beneficiar bons pagadores, como a concessão do benefício aos adimplentes até dezembro de 2004. Também seriam exigidos certificados de depósito da safra como garantia para a rolagem, o que deixaria os produtores sem caixa para pagar débitos com fornecedores privados ou custear a nova safra. "Se for assim, ninguém pode aceitar", diz João Sampaio, presidente da Sociedade Rural Brasileira. Em contrapartida, o governo aceita recompor parte do Orçamento para auxiliar a comercialização da safra. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, prometeu R$ 500 milhões imediatos para sustentar preços agrícolas na venda da safra. Mas a verba não inclui a compra direta da produção, fundamental para milho, arroz e trigo. Rodrigues pede R$ 1,3 bilhão para todos os instrumentos. Nem mesmo a intervenção do presidente Lula nas negociações surtiu o efeito esperado por Rodrigues. Uma reunião coordenada por Lula na terça-feira, que deveria ser conclusiva, adiou a decisão sobre a dimensão do pacote para a próxima semana. O presidente está mais envolvido com a reforma ministerial e a remontagem do governo para enfrentar a reeleição do que com uma solução para o setor. Em público, para pressionar o governo, Roberto Rodrigues aposta em uma saída até segunda-feira, mas já avisou a aliados que não espera uma solução para tão cedo. A resistência em renegociar um pacote mais amplo de rolagem das dívidas debilita o pacote agrícola. Além disso, desagrada às principais lideranças do setor e o próprio ministro, que tem reiterado a disposição de deixar o cargo em caso de não ter seus pedidos atendidos. "Isso não ataca o problema central, o endividamento do setor", afirma o novo presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Abelardo Lupion (PFL-PR). "O ministro já devia ter pego o chapéu, ainda no tratoraço [realizado em junho de 2005, em Brasília], quando o governo descumpriu promessas e não nos atendeu". Segundo ele, porém, a bancada ruralista "respaldo e apóia" Rodrigues até resolver a questão. "Não somos ideológicos nem partidários, mas defenderemos a agricultura até o fim".