Título: A ponte dinamitada entre os semelhantes
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, Política, p. A8
Se há dois mitos nacionais em processo de demolição na crise política do governo Lula, são as imagens que PT e PSDB fazem de si mesmos. Praticamente nada mais resta da imagem do PT como o partido da ética, diferente de todos os outros. A demissão de Antonio Palocci do ministério da Fazenda ajuda a acabar com a imagem de oposição suave que os tucanos gostam de cultivar. Independente da brutal agressão praticada pelo Estado contra o caseiro Francenildo, é inegável que a oposição sabe , de modo implacável, como amplificar uma crise e levar o presidente a cortar a cabeça dos que lhes são mais caros. Produziu uma fileira de cadáveres políticos agora incomparável com a que ocorreu nos oito anos do governo passado: três ministros de Estado, dois presidentes de estatais e quatro presidentes de partidos políticos. Ao eliminarem as imagens que criaram para demarcar as diferenças entre si, PT e PSDB dinamitam pontes que poderiam estabelecer um diálogo entre ambos, nem que fosse no ainda indivisível dia em que os dois estarão na oposição. Palocci não esperou virar ministro da Fazenda para se tornar o mais tucano dos petistas. O político ribeiro-pretano suspeito de perseguir caseiros e poupar ex-assessores envolvidos em casos de corrupção há mais de uma década estava à direita do pensamento médio petista.
-------------------------------------------------------------------------------- Palocci era o petista mais tucano do Brasil -------------------------------------------------------------------------------- Elegeu-se prefeito em 1992 de mãos dadas com o PSDB, que ficou com a vaga de vice na chapa. Privatizou uma empresa telefônica antes de Fernando Henrique vender a Telebrás. Apresentou Duda Mendonça a Lula. Em fevereiro de 2002, pouco antes de assumir a coordenação da campanha presidencial petista, dizia o seguinte: "A história nos afastou do PSDB, mas as circunstâncias podem mudar. Se o PSDB buscar uma aproximação, sou a favor de se abrir a porta". Dois anos antes, a interlocutores de Ribeirão, disse que uma união petista-tucana estava "perto do ideal do que o Brasil precisa". Banhos de sangue recentes à parte, o PSDB até agora é reverente com o ministro que ajudou a imolar. Jamais critica a política econômica que desenvolveu. Em Ribeirão Preto, onde os tucanos se revezam com Palocci no comando da máquina municipal desde 1992, inexistiram soluções de continuidade. Com Brasília em chamas, a prefeitura tucana de Ribeirão Preto renovou há três semanas a concessão para a coleta de lixo da empreiteira Leão& Leão na cidade. Ressalve-se que a Leão& Leão ganhou o processo licitatório, derrotando oito concorrentes ao apresentar o menor preço, reduzindo em 32% o que era pago na era palocciana. Mas é importante lembrar que esta é a empresa acusada de pagar a propina mensal de R$ 50 mil ao PT durante o governo Palocci, segundo afirmou Rogério Buratti, o ex-assessor e ex-amigo que Palocci decidiu não processar, "para não jogar o peso do Ministério em cima de pessoas, em um momento de apuração dos fatos", conforme declarou quando esteve na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em novembro, quatro meses antes do extrato da conta corrente de Francenildo circular pelos gabinetes e redações. No debate entre PT e PSDB em Ribeirão, questiona-se valores e desvios de conduta, mas não procedimentos. Palocci vendeu a metade da Ceterp, a empresa telefônica. Os tucanos que o sucederam o acusaram de a vender barato, mas alienaram o restante. Palocci concedeu para a iniciativa privada o tratamento de esgotos. Os tucanos mantiveram o modelo, trocaram o concessionário. "Na concepção administrativa , no modo de gerir a máquina, PT e PSDB em Ribeirão Preto são siameses", disse o vereador ribeiro-pretano Gilberto Abreu (PV), um ex-assessor de Palocci. Afora o seu encontro anunciado com o Ministério Público , é incerto o destino de Palocci em Ribeirão Preto. Tão pouco provável quanto o seu retorno à Direção Regional de Saúde número 18- a repartição pública da Secretaria de Saúde paulista onde Palocci está lotado como médico sanitarista - é sua candidatura à deputado federal pelo PT. O ex-ministro foi lançado pelo diretório municipal do partido, mas sua entrada em cena provocaria resistências. O candidato do partido no Nordeste paulista, o ex-prefeito de Franca Gilmar Dominici, avisa que não retira a candidatura. Mágoas antigas da terra natal são obstáculos a um retorno de Palocci às origens. "Em Ribeirão existe o petismo e o paloccismo, separados", afirma um vereador petista, Beto Cangussu. Fora dos muros do partido, circula na cidade uma pesquisa, não registrada, em que Palocci aparece na cidade em terceiro lugar para deputado, atrás dos dois adversários que derrotou nas campanhas de 1992 e 2000, quando se elegeu prefeito. Para quem sonhava com a presidência da República em 2010, a falta de apoio para se eleger deputado em sua própria terra dá a exata dimensão de seu desgaste.