Título: CPI conclui que houve mensalão
Autor: Thiago Vitale Jayme e Raquel Ulhôa
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, Política, p. A17
O pagamento de mesada a parlamentares com objetivos de ampliar a base de apoio ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva existiu e nada tem a ver com caixa 2 de campanha eleitoral. A conclusão está no relatório final apresentado ontem pelo relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). O parlamentar fez uma clara distinção entre os recursos não-contabilizados de campanha e aqueles embolsados por políticos para apoiar interesses do Palácio do Planalto. "No valerioduto existem recursos para o mensalão, para o caixa 2 e ainda para outros endereçamentos de difícil identificação", escreveu o pemedebista, no documento lido ontem na CPI. Ruy Baron/Valor "Muitos ainda negam a existência do mensalão porque a compra de apoio político mediante pagamento em dinheiro é um ato situado além da fronteira do imaginável no comportamento político", diz Serraglio. O relatório apontou o destino de R$ 55,6 milhões repassados aos partidos: PT (R$ 29,7 milhões), PL (R$ 12,3 milhões), PTB (R$ 3,8 milhões), PMDB (R$ 2,1 milhões) e PP (R$ 7,8 milhões). A CPI apresenta sete diagramas nos quais relaciona repasses de dinheiro às votações no Congresso, às trocas de partidos pelos deputados e às eleições municipais. É possível também identificar repasses com freqüências semanais e mensais aos políticos e seu assessores. O relatório demonstra como os recursos repassados pela Visanet ao Banco do Brasil foram utilizados para alimentar o mensalão. Serraglio isenta a Visanet. "É única e exclusivamente do BB, no caso da Visanet, a competência para escolher as ações de marketing, contratá-las, executá-las, liberar os recursos e beneficiar-se ou prejudicar-se", escreveu. A fonte dos recursos é a antecipação feita pela Visanet à DNA Propaganda, indicada pelo BB para receber os recursos a custear gatos com publicidade. Até 2002, os adiantamentos eram feitos mediante especificações de seus destinos. "A partir de 2003, a antecipação passou a ocorrer sem a especificação da ação", escreveu Serraglio. Os adiantamentos à empresa de Valério foram de R$ 53,8 milhões entre 2003 e 2004. O relatório aponta a Brasil Telecom como um dos maiores financiadores privados do valerioduto. Os repasses foram feitos à DNA em 2003 (R$ 823 mil) e à SMP&B em 2004 (R$ 3,6 milhões). As siderúrgicas Usiminas e Cosipa também são apontadas como grandes financiadoras do valerioduto. Valério é apontado por Serraglio como o grande coordenador do esquema: "Valério atua como facilitador na obtenção de recursos junto aos bancos e empresas e intermedeia o repasse aos beneficiários indicados por Delúbio Soares". A irrigação do valerioduto é dividida pelo relator em dois modelos. No primeiro, o dinheiro é arrecadado por Valério e repassado para as contas de suas empresas. O segundo modelo é chamado de "intermediários". O primeiro modelo é divido por Serraglio em seis fases cronológicas. Na primeira (fevereiro a maio de 2003) a origem do dinheiro são Rural e BMG. A segunda (julho e agosto de 2003), as origens são Rural, BB e BrT. Na terceira etapa (setembro a dezembro de 2003) a fonte é o Rural. Em janeiro, fevereiro e março de 2004, o valerioduto é abastecido pela Visanet. A quinta fase (abril a junho de 2004) tem a Visanet e o BMG como financiadores. A derradeira etapa (a partir de julho de 2004) apresenta uma multifacetada gama de abastecedores: Visanet, Usiminas, Cosipa e BrT. No segundo modelo, Serraglio aponta a corretora Bonus Banval e a empresa Guaranhuns como as maiores intermediárias do dinheiro a ser repassado por Valério a políticos. Serraglio classifica como falsos os dois empréstimos feitos pelo PT junto ao Rural (de R$ 2,4 milhões) e ao BMG (R$ 3 milhões) e pelas empresas de Valério (R$ 26,3 milhões do BMG e R$ 29 milhões do Rural). O relator aponta também irregularidades em contratos firmados pelas agências de Valério com o Banco do Brasil, Banco Popular, Fundacentro, Ministério do Esporte, Eletronorte e Câmara dos Deputados.