Título: China admite flexibilizar câmbio, mas sem choque
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, Internacional, p. A19
A China admite maior flexibilidade cambial no longo prazo, em relatório que distribuiu aos outros 147 países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) antecedendo o exame de sua política comercial no mês que vem. Pequim sofre intensa pressão dos EUA para valorizar sua moeda e reduzir o enorme superávit de US$ 200 bilhões por ano no comércio bilateral que amplia tensões entre Washington e Pequim. Esta semana, senadores americanos adiaram a votação de uma lei pela qual Washington deveria impor sobretaxa de 27,5% sobre todas as importações procedentes da China em retaliação a suposta vantagem que a política cambial chinesa daria a suas empresas. Ontem, o subsecretário para Assuntos Internacionais do Departamento do Tesouro americano, Timothy Adams, disse ao Comitê de Finanças do Senado dos EUA que "pressionará por mudanças mais rápidas" no sistema cambial chinês, mas ressaltou que "aparentemente não há vontade política para isso [em Pequim]". A OMC preparou um relatório sobre a situação chinesa no qual recomendou a Pequim adotar política cambial mais flexível. Esse documento servirá de base para o primeiro exame da política comercial da China, que foi adiada do começo de abril para os dias 19 e 21 daquele mês. Além do estudo da OMC, os membros receberam um relatório do governo da China, no qual Pequim dedica dois parágrafos à sensível questão cambial. O governo chinês diz que a reforma do yuan adotada em julho de 2005, de flutuação administrada do câmbio, levou em conta o impacto sobre a estabilidade macroeconômica e financeira, crescimento econômico e emprego, além das conseqüências sobre os vizinhos e a economia mundial. Pequim considera que desde então a cotação do yuan já resultou em "maior flexibilidade", manteve-se em "nível equilibrado" e que o objetivo a longo prazo da reforma é a completa conversibilidade de sua moeda. Apesar da insistência americana, o presidente do Banco Central chinês, Zhou Xiaochuan, disse que não haverá "terapia de choque". Os chineses preparam o terreno para uma visita menos conflituosa do presidente Hu Jintao aos EUA no mês que vem. Especialistas estimam que os senadores Chuck Shumer (democrata) e Lindsey Grahan (republicano) aceitaram frear a votação de sua lei no Senado, esta semana, porque teriam sido persuadidos de que Pequim está na direção de maior flexibilidade cambial. Em julho do ano passado, a China valorizou sua moeda em 2,1% contra o dolar americano e prometeu que o yuan flutuaria em torno de 0,3% ao dia. Desde então, a moeda apreciou apenas 0,97%, provocando a impaciência dos EUA e outros parceiros. A questão cambial será levantada por vários países, no exame da política comercial chinesa pela OMC. Pequim não colaborou para a preparação de parte do relatório da entidade, principalmente sobre dois capítulos: práticas comerciais e políticas comerciais por setor.