Título: Vitória do Kadima muda cenário político de Israel
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, Opinião, p. A22
Grandes mudanças em Israel estão acontecendo debaixo de um manto de apatia. O mais novo partido do espectro político israelense, o Kadima, foi o mais votado do país. O tradicional Likud, que abriga os partidários da anexação dos territórios ocupados, foi escorraçado para a quinta posição, e sua força minguou de 38 para 11 cadeiras no Parlamento, o Knesset. Os trabalhistas, com uma plataforma predominantemente social, ganharam apenas 8 postos a menos que o Kadima e recuperaram boa parte de sua força. Mas o índice de comparecimento do eleitorado atingiu 62%, o mais baixo da história do país. O ex-premiê Ariel Sharon provocou uma forte reacomodação no quadro político com a criação do Kadima, o vitorioso nas urnas. Sharon não teve sequer tempo de conceber a face programática da nova força política. Um derrame colocou-o em coma, do qual não se recuperou até hoje. Coube a seu colaborador íntimo e sucessor no governo e no leme do partido, Ehud Olmert, criar a plataforma eleitoral, cujo centro é a demarcação unilateral das fronteiras de Israel e do futuro Estado palestino até 2010, caso as negociações de paz com seus vizinhos não prosperem até lá. Já iniciada sob a batuta de Sharon, a política unilateral de Israel, que conta com o apoio dos americanos, ganhou mais força com a obtenção da maioria parlamentar pelo movimento radical Hamas nos territórios palestinos. A elevada abstenção é uma confirmação silenciosa de uma orientação já consolidada em Israel pelo prestígio de Sharon, ao implodir o Likud. Esse parece ser o instável centro de gravidade da política israelense, em torno da qual se darão as alianças para a formação do futuro governo liderado pelo Kadima. O rearranjo do cenário partidário israelense após as eleições mostra que, se o direitista Likud perdeu grande parte de seu prestígio, com o desgarramento dos adeptos de Sharon e das tendências mais ao centro, a ultradireita fez progressos. O Shas, que agrupa os judeus ultra-ortodoxos provenientes do Leste Europeu e Norte da África, obteve 13 cadeiras, às quais, pela idêntica cor política, devem ser somadas as 12 capturadas pelo Ysrael Beiteinu, dos judeus ortodoxos russos, e as 9 do Partido Nacional Religioso. Mais o Likud, o bloco de direita e extrema direita soma pelo menos 46 dos 120 postos do parlamento. O centro se reagrupou em torno do Kadima, com uma coloração um pouco mais à esquerda - é o caso do revigoramento do Partido Trabalhista. Com 28 cadeiras, 7 a menos que o esperado, o Kadima fará a coalizão com os trabalhistas, com 20 eleitos. A busca de 61 postos para criação de nova maioria se dará pela atração dos 10 postos dos partidos árabes, dos 4 do Meretz (esquerda), 3 do Hadash (judeus seculares e esquerda palestina) e 3 do Balad (palestinos nacionalistas). Além deles - e uma surpresa nas eleições - dará sua adesão o Partido dos Aposentados, com 7 cadeiras. Ainda que a governabilidade dependa de coalizões, ela parece menos instável que no governo anterior, onde a fatia do Likud que apoiava Sharon e os trabalhistas tinham que depender mais dos partidos religiosos de direita para se sustentar que agora. O principal opositor de Sharon no Likud, Benjamin Netanyahu, foi varrido pelas urnas e tornou-se uma sombra do que era. Se, por um lado, a vitória do Kadima representa algo como um consenso provisório e instável da sociedade israelense, por outro o princípio no qual se baseia tende a impedir que a paz se instale na região. As fronteiras pretendidas pelo Kadima incluem territórios árabes da Cisjordânia, toda a zona de fronteira com a Jordânia e, simbolicamente vital, toda a cidade de Jerusalém, parte da qual os palestinos reivindicam como sede do futuro Estado independente. É uma proposta amarga demais mesmo para as lideranças palestinas moderadas. As negociações de paz poderão prosperar se o Hamas, que já fez acenos para Israel, não colocar obstáculos e aceitar o diálogo - seu isolamento atual, promovido por Israel, EUA e pelos próprios palestinos, torna isso muito mais difícil - e se o novo governo israelense mostrar-se disposto a importantes concessões ao longo do caminho. A margem de manobra para isso, de ambos os lados, permanece estreita. O Hamas terá de se "refundar" e espera-se que a experiência de governo o force naturalmente a isso. E a direita israelense terá de perder mais força para que eventuais concessões não rachem o novo equilíbrio que parece ter sido conseguido com as eleições.