Título: O novo realismo israelense
Autor: Barry Rubin
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, Opinião, p. A22
A vitória do Kadima nas eleições israelenses é o mais importante marco de mudança política no país em 30 anos, se não mais. O novo partido - mal completados seis meses de existência - realinhou a política israelense mediante uma transformação de todo o referencial de premissas ideológicas em que se baseia a estratégia de segurança do país. Todos sabiam que o Kadima iria vencer e formar uma coalizão com o Partido Trabalhista, de esquerda moderada, que conseguiu um respeitável segundo lugar. Por isso, alguns eleitores do Kadima ficaram em casa, ao passo que outros correligionários em potencial do Kadima preferiram votar no Partido Trabalhista para fortalecer sua posição e o avanço de suas agendas social e econômica na coalizão liderada pelo Kadima. Na direita, o partido Likud, que Sharon abandonou para formar o Kadima, teve um resultado bastante insatisfatório, em parte porque muitos eleitores conservadores também o abandonaram, abraçando partidos religiosos, de imigrantes e outros. De fato, uma ampla diversidade de pequenos agrupamentos políticos, entre eles três partidos religiosos judaicos, partidos árabes e um partido de aposentados obtiveram assentos no Parlamento. Uma vez que o Kadima e os trabalhistas não terão maioria, mesmo como parceiros na coalizão, eles terão de obter apoio de alguns desses outros grupos. Mas a importância da distribuição de cadeiras empalidece em comparação com as mudanças de mais longo prazo na política israelense, resultantes da vitória do Kadima. Com efeito, tendo atraído figuras destacadas tanto do Partido Trabalhista como do Likud, o Kadima está, agora, estabelecido como o mais bem-sucedido partido centrista na história de Israel. Com poucas estrelas políticas remanescentes, seja no Partido Trabalhista ou no Likud, o Kadima pode tornar-se o partido dominante no país por muitos e muitos anos. Ehud Olmert, líder do Kadima, agora eleito primeiro-ministro, tem sido um paladino do centro desde seus dias de estudante - um símbolo apropriado para a reaproximação da esquerda e da direita. Mas a própria reaproximação é, naturalmente, resultado principalmente do trabalho de Ariel Sharon, cuja influência absolutamente não está diminuída pelo fato de estar em coma. O Kadima está fundado no carisma e no programa de Sharon, que reverteu o mais básico pensamento estratégico israelense do último meio século. Durante 30 anos após a guerra de 1967, havia um consenso entre os israelenses sobre a necessidade de manter controle sobre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, a menos que (ou até que) fosse firmado um abrangente acordo de paz com os palestinos e com os países árabes. Do ponto de vista da segurança, os territórios ocupados constituem um terreno crítico para defender Israel contra um ataque dos exércitos dos países árabes a suas fronteiras. Além disso, de um ponto de vista diplomático, os territórios eram considerados como moedas de troca ("terra por paz") a serem usadas para alcançar uma solução negociada. O acordo de Oslo, em 1993, e o processo de paz que se seguiu consubstanciaram essa expectativa.
-------------------------------------------------------------------------------- Os israelenses concluíram que os político não produzirão milagres, e que o máximo que podem esperar é a minimização das ameaças externas ao país --------------------------------------------------------------------------------
A estratégia encalhou em 2000, quando o primeiro-ministro Ehud Barak ofereceu a devolução de quase todos os territórios ocupados e aceitou um Estado palestino em troca de paz real. O líder palestino Yasser Arafat recusou totalmente a proposta e retomou uma ampla campanha de terrorismo contra Israel. Todo o espectro político israelense foi lançado em tumulto. A esquerda vinha sustentando que Arafat assinaria o acordo e o honraria; a direita afirmava que Arafat firmaria o acordo e o descumpriria. Todos estavam errados: não haveria acordo a ser honrado ou desrespeitado. Com o colapso das premissas mais básicas da estratégia, o que Israel deveria fazer? Sharon formulou a resposta em 2004, ao concluir que Israel não necessitava dos territórios. Eles não eram bons como moeda de troca, porque não havia com quem negociar. Também não poderiam ser anexados a Israel, devido ao problema demográfico decorrente de um continuado controle sobre um número tão grande de palestinos. Por fim, com o desaparecimento da URSS e a emergência dos EUA como única superpotência mundial, a situação geoestratégica tinha se modificado radicalmente. Os países árabes, preocupados com outras questões na era pós-Guerra Fria, estavam menos interessados no conflito, ao passo que a situação de segurança nos próprios territórios tinha se tornado um problema. A solução de Sharon foi uma saída unilateral e a idéia de que o próprio Estado de Israel decidiria sobre suas fronteiras provisórias, balizadas pelo que os israelenses reivindicariam se algum dia houvesse um acordo negociado. Além disso, Sharon então aceitou que uma cerca de segurança, que historicamente era defendida pela esquerda israelense, fortaleceria as defesas de Israel. O país então se concentraria em questões internas, como desenvolvimento econômico, aperfeiçoamento de suas instituições públicas e melhoria dos padrões de vida. Essa abordagem atraiu a vasta maioria dos israelenses, independente de sua filiação política, e a vitória do Hamas - que prega terrorismo e exige a extinção de Israel - em janeiro , nas eleições palestinas, apenas reforçou o novo consenso estratégico. Na realidade, o novo consenso é compartilhado pela maioria do Partido Trabalhista e pela principal oposição no interior do Likud. O sonho de paz, o fervor nacionalista e a suposta redenção religiosa que animou os combatentes políticos em Israel durante meio século se foram, substituídos por um pragmatismo resignado. Isso pode inspirar pouco entusiasmo, mas o país que agora escolheu a liderança de Olmert não está, absolutamente, desmoralizado. Ao contrário, as pesquisas de opinião pública revelam que os cidadãos continuam extremamente patrióticos e otimistas sobre suas vidas pessoais. Eles simplesmente concluíram que os político não produzirão milagres, e que o máximo que podem esperar é minimizar as ameaças externas. Esse é o legado de Sharon. E implementá-lo em Israel não será uma conquista pequena. Barry Rubin é diretor de Centro de Pesquisa Mundial em Assuntos Internacionais da Universidade Interdisciplinar de Israel e editor da "Middle East Review of International Affairs". Seu livro mais recente é "Long War for Freedom: The Arab Struggle for Democracy in the Middle East". © Project Syndicate 2006. www.project-syndicate.org