Título: Brasil terá 60 mil correspondentes
Autor: Altamiro Silva Júnior
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, Finanças, p. C1

O Brasil terá até o final do ano 60 mil postos de correspondentes bancários, um crescimento de 20% em relação ao final de 2005. Com o aumento da rede e a forte concorrência entre os bancos, a tendência é que os terminais passem a oferecer cada vez mais outros serviços, como seguros e cartões de crédito, e não apenas recebam pagamentos de contas, concluíram executivos do setor reunidos ontem em um seminário. Dados preliminares de uma pesquisa da empresa Relatório Bancário, feita ontem com 28 bancos presentes no seminário, indicam que 60% deles planejam colocar produtos como seguros, poupança e abertura de conta-corrente nos correspondentes. Outros 70% já começaram a oferecer crédito. Pela legislação do Banco Central, um correspondente não pode abrir uma conta-corrente ou oferecer crédito, mas pode receber a proposta do usuário e encaminhá-la ao banco. Um levantamento do BC, com seis bancos que representam 70% deste mercado, mostra que os correspondentes movimentaram no ano passado R$ 30 bilhões, em valores líquidos. Entre as operações, receberam R$ 10,7 bilhões de depósitos, R$ 721 milhões em concessão de crédito e R$ 8,8 bilhões em saques. Ao todo, foram 1,4 bilhão de transações, incluindo 116 milhões de saques e 1 bilhão em recebimento de contas. "Os correspondentes foram uma forma criativa de bancarização", diz Luiz Edson Feltrim, chefe do departamento de organização do sistema financeiro do BC. Com a expansão dos correspondentes, não há mais municípios no país sem terminais bancários. A Caixa Econômica Federal, o líder neste mercado, com 13 mil pontos, tem terminais em locais com 600 habitantes e já chegou a instalar geradores em algumas cidades que nem sequer contavam com energia elétrica, conta Tarcisio Dalvi, superintendente nacional de estratégia de canais da Caixa. Desde 2000, a rede de correspondentes no Brasil cresceu 295%, enquanto a de agências tradicionais subiu apenas 7%. No Brasil, há ainda 70 mil farmácias e 240 mil estabelecimentos comerciais sem terminais. O Banco Real é um dos bancos que estuda oferecer novos produtos na sua rede, hoje com 1.042 pontos em operação e mais 1.870 terminais em implantação. O banco está fazendo testes para ver a viabilidade da venda de seguros residenciais e títulos de capitalização. Henrique Brito, coordenador comercial do correspondente bancário do Real, acredita que, além destes produtos, os terminais devem se transformar no futuro em um canal para a concessão de microcrédito. No Real, as transações nos correspondentes (1,38 milhão por mês) já respondem por 10% de todas as transações do banco. A Caixa também está fazendo testes para oferecer cartões de crédito e títulos de capitalização em sua rede. "É uma forma de aumentar a rentabilidade do ponto", diz Dalvi. Com o concorrência por estabelecimentos comerciais, o executivo prevê uma queda das tarifas dos serviços para os bancos e um aumento das taxas que ele paga para os estabelecimentos, por isso a busca para oferecer novos serviços. Dalvi prevê, porém, que o pagamento de contas vai continuar sendo o principal serviço dos correspondentes. "Não podemos desvirtuar a função dos correspondentes. Se um estabelecimento tem como principal função ser correspondente, é melhor que se transforme em agência." O Lemon Bank, que já oferece seguros, crédito consignado e conta-corrente, começou este ano a disponibilizar crédito pessoal em parceria com a financeira Losango, diz Gilberto Salomão, diretor do Lemon. O banco estuda ainda oferecer cartão de crédito em seus 4.200 pontos. O modelo brasileiro foi inspirados em países como o Japão e a França, mas já se tornou modelo para outras regiões. O BC recebeu nos últimos dias uma comitiva da Angola e de São Tomé e Príncipe para conhecer a rede local. Nos países desenvolvidos os negócios são bem maiores que no Brasil e indicam o potencial deste mercado aqui. Na França, o La Poste tem 43,7 milhões de correntistas e US$ 200 bilhões em depósitos. Na Holanda, o ING Postbank possui 8 milhões de correntistas e US$ 22,5 bilhões em depósitos.