Título: O novo desabafo de uma Letra Financeira do Tesouro
Autor: Alexandre Póvoa
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2006, EU &, p. D2
Em outubro de 2002, o ano mais conturbado da nossa história econômica recente, uma velha conhecida do mercado financeiro pediu espaço para um desabafo nesta coluna. Reproduzo um parágrafo que, na época, refletia o seu desespero:
"Sou uma Letra Financeira do Tesouro Nacional (LFT), título pós-fixado emitido pelo governo federal, indexado à taxa Selic. Minha classe representa 55% da dívida interna brasileira, sendo eu até então considerada o que os livros de finanças chamam de 'ativo livre de risco'. Pois é, os tempos mudaram. Vencerei em fevereiro de 2003 e quem me comprar hoje e carregar-me até o vencimento, daqui a quatro meses e meio, receberá nada menos que 112,5% da taxa Selic. Se um banco qualquer lhe oferecesse um CDB no mesmo prazo e condições, você provavelmente desconfiaria do risco. Enfim, existe um cheiro de default no ar." O final do comovente relato é relembrado na íntegra: "... Está duro ser LFT nestes dias. O meu desvalorizado preço só não está pior porque o Banco Central, heroicamente, com recompras e encurtamentos, tem estabilizado as cotações. Porém, tenho certeza de que tudo vai passar e certamente morrerei em 19 de fevereiro de 2003, sem uma aventureira sobrevida artificial. Mas será que o Brasil amadurecerá como nação, para que permitamos o nascimento, por exemplo, de uma LFT em 19 de fevereiro de 2007, a ser paga um mês e meio após a posse do próximo presidente?" Pois é. O mundo e o Brasil continuaram dando voltas. Qual não é a minha agradável surpresa quando a protagonista daquele cenário de horror me solicita outra oportunidade para atualizar suas impressões. "Caro colunista, Volto a escrever-lhe, desta vez em conjuntura bem menos ameaçadora. Além da relação dívida/PIB estabilizada, o Brasil trocou o desequilíbrio externo por situação bem mais confortável - déficit de 4,5% por superávit de 2% em transações correntes. Pelo menos por enquanto, não há um candidato a presidente que defenda idéia heterodoxas e que tenha chances reais de vitória. Hoje, voltei ao meu preço justo, negociada a 100% da taxa Selic. Aquela combinação perversa de episódios - marcação a mercado e seus critérios sem uniformidade entre os fundos, permissão para pagamento de impostos atrasados por fundos de pensão (RET), leilões de LFT com swap cambial e o medo do discurso histórico oposicionista pró-calote - parece que não vai se repetir em 2006. Isto me custou alguns anos no divã de um analista, mas hoje tenho certeza que não sou um 'junk bond'. Nos últimos tempos, assisti ao sucesso de parentes próximos, como as NTNs. Se, naquele turbilhão de 2002, alguém projetasse alta demanda por títulos soberanos locais de vencimento até 2045, corria o risco de ser preso por insanidade. A pena aumentaria exponencialmente se fosse citada a inverossímil chance de colocação de papéis indexados ao real no exterior. A última moda virou o pré-anúncio da minha morte. Depois de exterminarem a 'erva daninha' da dívida interna dolarizada, proclama-se que as LFTs serão o próximo alvo. Todos os economistas estão pregando uma verdadeira depuração de raças, com foco na eliminação dos papéis pós-fixados. A minha criação, como instrumento facilitador de rolagem da dívida pública, foi plenamente justificável em tempos de alta inflação. Mas reconheço que houve um desvirtuamento do meu sentido original, sobretudo com o exagero do alongamento dos meus prazos para até dez anos, mesmo com toda segurança oferecida. Querem acabar conosco? Mas ainda representamos metade (cerca de R$ 500 bilhões) da dívida pública interna, em uma indústria marcada pelo conservadorismo de quem compra (o público em geral) e de quem vende (destaque para os gerentes de grandes bancos). Não é à toa que o governo tem procurado atrair o investidor estrangeiro para o alongamento da dívida. Enfim, posso, no limite representar empecilho até para uma queda de juros mais aguda. Portanto, aviso aos navegantes: da mesma forma que em 2002 alertei que se tratava de enorme erro a minha venda a preços com forte desconto, não apostem agora todas as fichas neste planejado extermínio. A transição do país para o grau de investimento, apesar de bem encaminhada, depende de muitas reformas e da manutenção de um cenário externo benigno, o que ainda deve, no mínimo, trazer volatilidade ao mercado. E a velha e boa LFT estará sempre aqui, para voltar a desempenhar o seu papel tradicional de porto seguro." Apesar de fazer parte da ala otimista, é sempre bom respeitar a opinião da LFT. Afinal, quem não acreditou na palavra dela em 2002 deve estar muito arrependido até hoje.
Alexandre Póvoa é diretor da Modal Asset Management
E-mail apovoa@modal.com.br
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