Título: "Seleção natural" ameaça os pequenos agricultores
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 31/03/2006, Agronegócios, p. B13

O gaúcho Elton Schabaron tomou, no último trimestre de 2005, uma das decisões mais difíceis para quem vive de produzir: deixou de plantar em sua própria terra, em Balsas (MA), e foi trabalhar na fazenda do também gaúcho Célio Weiler. O produtor teve de recorrer a essa saída porque não conseguiu renegociar os débitos de financiamentos com bancos e tradings tomados para plantar a safra 2004/05. Segundo ele, a situação foi resultado da queda do dólar em relação ao real combinada com os baixos preços da soja. Sem dinheiro para pagar dívidas e sem crédito, Schabaron foi trabalhar para Weiler e não semeou nenhum grão em sua área de 170 hectares no ciclo atual. "Tinha de voltar a trabalhar em cima do que é meu, mas a situação não está boa", lamenta o produtor, que está no Maranhão desde 1996. Ele diz que se não conseguir refinanciar seus débitos será obrigado a vender "parte" de suas terras, que só não estão paradas porque um genro está plantando feijão em parte delas. O que Elton Schabaron está vivendo é um exemplo do que tende a ocorrer em grandes regiões de produção agrícola do Brasil - uma espécie de "seleção natural" em tempos bicudos para o agronegócio. Para o analista André Debastiani, da Agroconsult, a decisão de plantio de grãos da próxima safra dependerá do comportamento do câmbio no decorrer do ano, da política agrícola do governo e do desempenho da comercialização na temporada atual. De qualquer forma, um cenário já se desenha. Segundo Debastiani, diante da crise de rentabilidade que o setor enfrenta, grandes grupos - que não dependem de financiamentos e têm planejamento de longo prazo - devem continuar abrindo novas áreas de plantio. Já os produtores de médio porte devem diminuir o ritmo de abertura de áreas, pois dependem do bom rendimento da safra para investir na temporada seguinte. Pequenos produtores que tiverem dificuldade de pagar suas contas, no entanto, devem ser penalizados. "O número de produtores deve diminuir porque alguns podem ter de deixar a atividade", avalia Debastiani. Anfrízio de Morais Meneses Filho, gerente do Banco do Brasil em Balsas, concorda que apenas os produtores "mais estruturados" deverão sobreviver. Na região, o BB, que é um dos maiores agentes de crédito do agronegócio no país, fez 757 operações de custeio agrícola nesta safra, abaixo dos 802 da safra anterior. Segundo Meneses Filho, o volume financiado caiu 30% entre as duas safras. Além do menor número de operações, explicou, o valor caiu já que o limite de crédito por produtor recuou por causa da capacidade de pagamento reduzida. Na região de Bom Jesus, no sul do Piauí, o Banco do Brasil só financiou dez produtores neste ciclo 2005/06, conforme o gerente local Renato Jorge de Sousa. Foram 25 na temporada 2004/05, e oito deles tiveram de renegociar suas dívidas, segundo Sousa. (AAR)