Título: Crise turva "mar verde" de soja do cerrado nordestino
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 31/03/2006, Agronegócios, p. B13
A comparação com o mar é recorrente, mesmo entre os que já estão acostumados com a paisagem. Nas chapadas do sul do Piauí e no sul do Maranhão impera um "mar verde" de soja - "mar" cuja área avançou cerca de 20% ao ano até a safra 2004/05, mas que agora parece estar sob os efeitos de uma grande ressaca. Arnaldo Alves/Mcpress Segundo o produtor Valtério Manganelli, na região de Bom Jesus o rendimento deverá cair para 40 a 45 sacas de soja por hectare, ante 65 em 2004/05 Os primeiros sinais já surgiram: na safra 2005/06, que está sendo colhida, a área de plantio de soja no Piauí cresceu apenas 3% - para 214 mil hectares - e no Maranhão, 5% - para 410 mil hectares - , segundo estimativas do mercado e de tradings que atuam na região. Para a próxima temporada, a expectativa entre os produtores é que as áreas se mantenham, e há até quem acredite em redução no plantio. A "ressaca" para os produtores das duas regiões do cerrado nordestino, consideradas novas fronteiras agrícolas, é a valorização do real em relação ao dólar desde 2005, que afetou a receita decorrente da venda do grão e deixou muitos produtores endividados. Como consequência, o crédito para o plantio também ficou restrito. E para piorar o ânimo dos produtores, um "veranico" em janeiro, que dependendo da região durou entre 20 e 30 dias, também deve diminuir a produtividade das lavouras de soja do Piauí e do Maranhão. Esse foi o cenário que o Valor presenciou entre os dias 17 e 23 de março, quando visitou a região junto com a equipe Norte-Nordeste do Rally da Safra, promovido pela Agroconsult. "Cheguei a crescer 70% de 2003/04 para 2004/05, mas agora penso em reduzir a área em 10%. Não vou usar recursos próprios para plantar", afirma Thomas Kudiess, gaúcho de Ijuí que plantou 2.500 hectares de soja nesta safra em Uruçuí (PI), onde está há sete anos. Em 2004/05, Kudiess financiou 60% da produção no BNB e 20% no Banco do Brasil. Com a crise de rentabilidade, não conseguiu pagar o BB. "Pela primeira vez na vida, não paguei o Banco do Brasil e tive de renegociar 50% da dívida". O produtor reconhece que se descapitalizou "porque cresceu demais" quando ampliou a área em 70%. Outro gaúcho, de Santo Antônio das Missões, Valtério Manganelli, também sofre as incertezas de quem cresceu muito nos últimos anos. Junto com dois filhos toca uma área de soja de 3.200 hectares em Bom Jesus (PI), e ainda não faz previsões sobre a próxima safra. "Plantamos com dólar de R$ 2,30 a R$ 2,40 e estamos vendendo a soja com dólar de R$ 2,10", queixa-se Nelson Manganelli, um dos filhos. Mesma reclamação de Oswaldo Massao Ishii, que planta 4.850 hectares de soja em São Raimundo das Mangabeiras, na região de Balsas (MA). "O câmbio está matando o produtor", afirma o paranaense, que é medico de formação. Como efeito da valorização, a saca de soja, que bateu R$ 52 há dois anos na região de Uruçuí, era comercializada a cerca de R$ 20 na segunda quinzena de março, de acordo com produtores. Além dos preços mais baixos, os Manganelli terão de amargar uma queda de produtividade por causa do veranico, apesar de não terem reduzido o nível tecnológico - como o uso de fertilizantes - das lavouras. Pelas estimativas de Valtério, o rendimento deve cair para 40 a 45 sacas de soja por hectare, contra 65 sacas em 2004/05. Se tal rendimento se confirmar, a família vai perder, uma vez que o custo de produção da soja nesta safra ficou em 47 sacas por hectare, estima Gilson, irmão de Nelson. O agricultor Max Plentz - que planta na Serra do Quilombo, em Bom Jesus (PI) - também deve obter menor rendimento em suas lavouras de soja nesta safra. Na passada, a média na região foi de 52 sacas por hectare, mas Plentz não deve colher mais do que 35 sacas agora. Além do efeito do veranico, as lavouras de Plentz receberam menos adubo este ano por conta do descompasso que o dólar desvalorizado causou entre os custos e a receita. O gaúcho de Cruz Alta já reduziu sua área de soja na temporada 2005/06 em 400 hectares, para 1.100 hectares, justamente por causa dos custos, e lamenta não poder abrir novas áreas de plantio. "Poderia ter 3 mil a 4 mil hectares de área plantada (...) Mas não é um ano para investir", reconhece Plentz, que chegou ao Piauí há dez anos, depois de passar pelo Mato Grosso. Assim como em outras regiões de produção do país, entre os agricultores do sul do Piauí e do Maranhão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se um vilão, por conta da política econômica que mantém o real valorizado. "Essa política precisa mudar", defende o paulista José Roberto Bortolozzo, pioneiro da soja em Uruçuí, que plantou 12.500 hectares nesta safra, 500 a mais que em 2004/05. Bortolozzo diz que sua intenção é crescer 500 hectares por ano, mas reconhece que o ritmo do avanço na região deve sofrer uma "brecada" por causa da baixa rentabilidade. O descontentamento com o governo Lula está estampado nos pára-brisas dos carros nas regiões de produção do Piauí e do Maranhão, onde se pode ver adesivos com inscrições como: "Lula, a pior praga da agricultura" ou "Lula: a nova praga da agricultura". Um desses adesivos está na caminhonete do produtor de Nova Santa Rosa, na região de Uruçuí, o gaúcho José Elói Schaefer. Trata-se de um caso emblemático, já que Schaefer foi secretário da Agricultura de uma gestão petista na cidade de Santo Cristo (RS) entre 1993 e 1999 - ano em que o produtor migrou para o Piauí para plantar soja. Enquanto dirige por uma estrada de terra no meio do cerrado piauiense, que leva de Nova Santa Rosa a Uruçuí, o pedetista - e brizolista - Schaefer acusa o governo de "falta de capacidade administrativa" e não poupa o ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que, segundo ele, "não está fazendo nada".