Título: Personagens da crise no Mercosul
Autor: Sérgio Leo
Fonte: Valor Econômico, 03/04/2006, Brasil, p. A2
O recém-nomeado presidente do BNDES, Demian Fiocca, terá contato, nos próximos dias, com um desafio inesperado, entre as atribuições que herdou do antecessor, Guido Mantega: o banco, maior agência de fomento da América Latina, acaba de ser colocado no centro das discussões para um novo acordo de comércio do setor automotivo entre Brasil e Argentina. O Brasil tenta obter da Argentina o compromisso de fixar uma data para acabar com as barreiras no comércio de automóveis e peças automotivas entre os dois países - o comércio regulado é hoje uma das excrescências no Mercosul, onde as mercadorias deveriam circular livremente. Enquanto o livre comércio não vem, interessa aos brasileiros a maior flexibilidade possível das regras no setor. A negociação mal começou, mas os argentinos já deixaram claro ao Brasil que qualquer acordo terá de incluir algum tipo de mecanismo financeiro para equilibrar as condições de financiamento para investimentos no setor. É aí que entra o BNDES. Os argentinos destruíram, no passado, seus próprios mecanismos de política industrial. Agora culpam o BNDES e as políticas ativas do Estado brasileiro de desequilibrar as condições de investimento, drenando para o Brasil os recursos investidos no continente. A tese da necessidade de uma política industrial acoplada às negociações comerciais do Mercosul (que, implicitamente, invoca a necessidade de ampliar aos vizinhos algumas das facilidades de investimento propiciadas pelo BNDES) é defendida com empenho pelo secretário da Indústria da Argentina, Miguel Peirano, um jovem economista que fez grande parte da carreira trabalhando para a União Indústrial Argentina (UIA). Com fama de negociador duro, Peirano promete participar pessoalmente das discussões sobre o acordo automotivo. Na próxima reunião de negociações do acordo, em maio, os argentinos esperam do governo brasileiro a primeira resposta sobre o pedido de atuação do BNDES no mercado automotivo do Mercosul. Uma das possibilidades que entrará em exame pelo Brasil é a extensão, a automóveis argentinos, das facilidades dadas pelo BNDES ao financiamento da compra de carros para a frota de táxis no Brasil.
-------------------------------------------------------------------------------- Governo quer despolitizar debate sobre gás boliviano -------------------------------------------------------------------------------- É possível que esta discussão seja recebida com a habitual xenofobia que desperta toda iniciativa brasileira de apoio aos países vizinhos. É o tipo de assunto sensível, especialmente em época de eleições presidenciais. A notícia publicada ontem pelo "Estado de S. Paulo", sobre a migração de traficantes brasileiros para o Paraguai, onde cultivam plantações cada vez maiores de maconha, é apenas o mais recente e verdejante exemplo de como a deterioração da saúde política e econômica dos países vizinhos tem reflexos importantes para o Brasil, e não só na economia. Assim como na União Européia as economias mais fortes criaram fundos para elevar a capacidade dos sócios mais pobres, é de interesse do Brasil explorar alternativas - dentro das limitadas possibilidades do país - para evitar o colapso das economias na vizinhança. Os mecanismos encontrados pelo governo podem até merecer crítica e exigir contrapropostas; mas simplesmente condenar qualquer decisão que implique concessões aos vizinhos é sintoma de autismo e falta de visão estratégica.
Os riscos do gás da Bolívia
Se não houver contratempos de última hora, o presidente da Bolívia, Evo Morales, tomará café da manhã, hoje, em Belo Horizonte, com o assessor internacional da presidência da República, Marco Aurélio Garcia. Na última passagem por La Paz, há pouco mais de um mês, Garcia falou dos projetos de cooperação entre os dois governos, e, em relação às políticas de nacionalização das reservas de gás bolivianas, disse a Evo e seus auxiliares que não aceitaria negociar pela imprensa e que qualquer discussão teria de tratar não só da situação presente, mas também do passado, quando o Brasil investiu pesado no gasoduto entre os dois países e comprou, por muito tempo, o gás boliviano a preços superiores aos internacionais, para viabilizar o empreendimento. As autoridades brasileiras ficaram profundamente irritadas com o que classificam de um "surto" do ministro de Hidrocarbonetos (Energia) da Bolívia, Andrés Soliz-Radas, que azedou o tom das discussões sobre o futuro dos investimentos da Petrobras na Bolívia ao anunciar, há uma semana, que endureceria nas negociações e acusar Brasil e Argentina de pressionar indevidamente o governo boliviano por razões mercantilistas. Os bolivianos querem aumentar o preço do gás para o que consideram o preço internacional (o que mais que duplicaria o valor pago hoje pela Petrobras). Também querem aumentar o preço do gás já comprado pela Petrobras e não usado, segundo o contrato que obrigava a Petrobras a adquirir um percentual do gás fornecido pelo gasoduto, mesmo que não houvesse demanda para o produto. Soliz Radas, um advogado e jornalista que se popularizou na Bolívia com um discurso fortemente nacionalista e contrário à exploração do gás boliviano por empresas estrangeiras, mudou ligeiramente de tom, na semana passada, com declarações mais diplomáticas, mas, ainda assim, duras, contra a Petrobras. Evo Morales anunciou que viria ao Brasil discutir pessoalmente com os executivos da estatal. Mas a negociação passará também pelo Palácio do Planalto. O Itamaraty preferia manter as discussões no âmbito da empresa, para evitar o risco de excessiva politização do debate. Assusta à Petrobras a falta de preparo técnico das autoridades do setor energético. O assunto toca em feridas profundas na Bolívia, onde grande parte das riquezas minerais foi extraída, pelos espanhóis e pelas elites locais, sem que, nunca, a população tenha tirado proveito. Sem qualquer intenção de trocadilho, o tema é explosivo, não só para as relações Brasil-Bolívia, mas também para o próprio futuro do governo Evo Morales.