Título: Planalto acena a governadores para adiar convenção do PMDB
Autor: Maria Lúcia Delgado e Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 29/11/2004, Política, p. A-8

O governo jogará esta semana os lances que pretende decisivos para adiar a convenção nacional do PMDB. Uma das estratégias para minimizar as resistências da ala oposicionista do partido e construir um cenário favorável ao adiamento é resolver pontualmente pendências de Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio de Janeiro no Ministério da Fazenda. Os governadores do PMDB aguardam ansiosamente liberações de recursos do Tesouro para quitar o 13º dos servidores. O governador Germano Rigotto, por exemplo, precisa de R$ 175 milhões de depósitos judiciais para estabilizar as finanças do Rio Grande do Sul. Rigotto exige que o governo federal adote com os Estados a mesma postura que teve com a Prefeitura de São Paulo. Com base num decreto presidencial, a prefeita Marta Suplicy conseguiu sacar R$ 143,7 milhões do fundo de depósitos judiciais, que até então só podia ser usado para o pagamento de precatórios. Lula já conversou pessoalmente com o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique. O presidente também tentou uma aproximação com os oposicionistas radicais do PMDB, como o deputado Geddel Vieira Lima (BA). Uma aliança com o PT na Bahia garantiria a reeleição de Geddel, o que interessa ao parlamentar. É assim, reduzindo atritos de todos os lados, que o governo espera viabilizar o adiamento da convenção de 12 de dezembro, em que se vai decidir se o partido deixa ou não o governo. Nas avaliações feitas no fim de semana, os governistas do partido chegaram à conclusão de que têm maioria na Executiva para desconvocar a convenção, mas preferem que isto seja feito por consenso, para "não explicitar as divisões e esmagar a minoria". A crise política no PMDB do Rio, por causa do suposto envolvimento de políticos da legenda com um esquema de extorsão do bicheiro Carlos Cachoeira, é positiva para o governo, avaliam pemedebistas, porque enfraqueceu o grupo de Anthony Garotinho. Os partidários da permanência pretendem também argumentar que o PMDB que apoiou o governo foi vitorioso nas eleições, e o que ficou na oposição saiu derrotado. Neste caso estariam os governadores de Pernambuco, do Rio Grande do Sul e do Rio. Para adiar a convenção nacional do PMDB, há duas possibilidades: a Executiva poderá pedir o adiamento, ou ajuiza-se um pedido de liminar na Justiça para suspendê-la. Pelos cálculos dos governistas do PMDB, eles teriam a maioria na Executiva (10 integrantes). Tanto o governo quanto os pemedebistas alinhados com Lula acham muito arriscada a realização da convenção. "Sempre há traições de última hora", disse um pemedebista que conhece a dinâmica partidária. Resolvida a questão da convenção, devem avançar as negociações da reforma ministerial para ampliar o poder no PMDB no governo. Lula está tão reservado em relação ao tema que nem mesmo a cúpula pemedebista tem idéia do que o presidente quer fazer. Dentro do partido existem, porém, algumas certezas, e uma delas é que o ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, não sai. Outra, que o senador Romero Jucá continua sendo o mais cotado para representar o PMDB no governo, seja no terceiro ministério, ou substituindo Amir Lando na Previdência. Segundo líderes pemedebistas, Lula só disse, em jantar com senadores, que acha pouco dois ministérios para o PMDB. A possibilidade de o ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil, voltar para a Câmara e disputar a presidência da Casa não está afastada ainda. Lula não aprova, mas o ministro continua insatisfeito com o que considera um confinamento aos assuntos administrativos do governo, que deveria coordenar e gerenciar, e que lhe teria sido imposto pelo presidente. A notícia que amigos e circunstantes dão do ministro Dirceu é que ele está "deprimido" com esta missão, que acha burocrática, no momento em que aquele que considera seu adversário na disputa pelo comando do governo, o ministro Antonio Palocci, ganha o apoio total do presidente. Há divergências no PT a respeito, inclusive, do que se deve esperar da investida de Dirceu na presidência da Câmara, se vier mesmo a ocorrer. Segundo parte das avaliações, Dirceu criou tantas arestas e conseguiu desagradar a tantos em tão pouco tempo, que sua eleição correria riscos. Outros prevêem que o simples anúncio de sua candidatura já provocaria a desistência de três ou quatro dos atuais candidatos, justamente os mais fortes, a ele ligados, facilitando a formação rápida da maioria nas demais bancadas.