Título: Propaganda local para produtos de exportação
Autor: Eliane Sobral
Fonte: Valor Econômico, 03/04/2006, Empresas &, p. B2

Ao contrário do Brasil, onde as mulheres são a principal força de consumo nos supermercados, na Arábia Saudita quem faz as compras para o lar são os homens. Anunciar aves, carnes e derivados em revistas femininas, portanto, é perda de tempo. Assim como seria um desperdício divulgar as qualidades dos produtos Perdigão para os russos. Embora sejam fiéis consumidores da indústria brasileira, o nome Perdigão não lhes diz muita coisa. Já os produtos da marca Fazenda, os russos conhecem muito bem. Isso porque, depois de algumas pesquisas com o consumidor, a Perdigão percebeu que eles simplesmente não conseguem pronunciar o sufixo nominal "ão". A saída foi adotar outra marca para a Rússia e assim nasceram os produtos Fazenda. O diretor de marketing da Perdigão, Antonio Zambelli, conta que uma feliz coincidência resolveu o problema da escolha do novo nome. "Era 2001 e a novela "Escrava Isaura" estava no ar e fazendo um sucesso tremendo na Rússia. Aí o nome Fazenda surgiu naturalmente e foi adotado com facilidade por eles". Descobrir novos mercados e iniciar as exportações é apenas a primeira etapa das empresas que vendem para outros países. Para quem quer conquistar o consumidor final, a propaganda também é um desafio considerável. Foi assim com a Perdigão que optou por centralizar sua propaganda na agência brasileira Y&R. As peças são produzidas aqui e enviadas para as adaptações aos mercados onde serão veiculadas. "Já passamos pela experiência de ter uma agência em cada país para onde exportamos. Mas aí cada um pensa de um jeito e a marca pode perder a identidade e o que é pior, as características de brasilidade não aparecem", diz Zambelli. Anuar Tacach, diretor corporativo de desenvolvimento da Y&R diz que a agência mantém um núcleo encarregado exclusivamente das campanhas de clientes que têm negócios no exterior. Casos da TAM, para quem a Y&R desenvolveu campanhas para os Estados Unidos e para o Chile, e da Mercedes Benz, cujas campanhas para América Latina são criadas pela agência no Brasil. Na agência Almap/BBDO o formato é parecido - à exceção dos parceiros locais. Dona da conta das sandálias Havaianas - um fenômeno de vendas em presente em 65 países, da Europa ao Oriente Médio - a Almap produz as campanhas aqui e disponibiliza várias opções para que agências contratadas localmente escolham a que melhor se adapta a seus mercados. Fico Meirelles, diretor de atendimento e planejamento de Havaianas na Almap, diz que os anúncios ficam numa espécie de prateleira digital e as agências contratadas em outros mercado só têm de informar qual deles vão utilizar. "As vezes a gente tem de fazer algumas adaptações de tamanho, mas a mensagem é a mesma", diz. Se centralizar no Brasil a criação da publicidade parece ser o melhor caminho, na opinião dessas empresas, o mesmo não vale para a compra de mídia. "Essa decisão é melhor quando tomada pela agência local. Ela conhece melhor do que nós a realidade de seus mercados e sabe qual meio vai atingir melhor o público-alvo", resume Zambelli citando o exemplo dos sauditas. "Na Arábia Saudita nossos anúncios estão nos cadernos de esportes dos jornais e não nas revistas femininas como recomenda a nossa lógica".