Título: Crédito impulsiona a indústria
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 03/04/2006, Finanças, p. C1

O avanço cada vez mais rápido dos cartões de crédito e débito e transações via internet, tomando o lugar do cheque e do dinheiro, criou um movimento sem precedentes em toda a indústria de meios de pagamento. Nesta semana, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) vai anunciar o lançamento de um programa de cartões de marca própria ("private label") em parceria com a financeira Losango, do grupo HSBC. A ação se soma a outras duas grandes transações anunciadas só no último mês: a compra da operação brasileira da American Express pelo Bradesco e a criação de uma grande empresa de processamento de cartões, a Fidelity Processamento e Serviços, uma sociedade entre o mesmo Bradesco com o Banco Real e a Fidelity National americana, uma das maiores do mundo no setor. Mas o movimento, que também está relacionado ao forte crescimento do crédito no país, não se restringe aos gigantes. A Braspag, uma pequena processadora de cartões que nasceu há apenas dez meses, atingiu o equilíbrio financeiro em sete meses e hoje processa R$ 400 milhões para clientes do porte da Dell, Shoptime, TAP, Mercado Livre e Tok & Stok. Agora está abrindo uma operação na Argentina e outra no Chile, atendendo a demanda de empresas multinacionais que precisam integrar as operações nos três países. André Street, presidente da Braspag calcula que, pelo ritmo atual da demanda, vai processar mais de R$ 1 bilhão até outubro e cerca de R$ 10 bilhões em 2008, quando as unidades argentina e chilena estiverem integradas. Com apenas 22 anos, Street, que abriu sua primeira empresa de processamento de meios de pagamentos aos 15 anos, disse que está impressionado com a explosão da demanda de multinacionais que estão chegando sem parar ao Brasil e precisam integrar suas plataformas de transações comerciais. "Esse mercado de processamento é novo no país e acho que, mais para frente, vai passar por uma consolidação", prevê o jovem empresário. O analista de varejo financeiro Boanerges Ramos Freire, dono da consultoria Boanerges & Cia., acrescenta que o número de parcerias e sociedades em crédito e meios de pagamento tende a aumentar à medida que cai o uso do cheque e do dinheiro como forma de pagamento. Segundo seus cálculos, o número de transações com cartões de débito superou o de cheques no último bimestre de 2005 e atingiu o mesmo patamar, na média. A bancarização acelerada também contribui para esse processo à medida que os bancos e financeiras disseminam os cartões entre a população de baixa renda e estimulam seu uso em substituição ao cheque, explica Boanerges. O objetivo da ACSP é tornar viável a emissão de "private label" para um grupo estimado entre 10 mil e 11 mil pequenos comerciantes varejistas, com mais de 5 mil clientes cadastrados cada, que individualmente não têm escala que justifique a emissão de cartões próprios. "Nossa função é dar ferramentas aos associados para que eles façam boas vendas", define Roberto Haidar, superintendente de Marketing e Serviços da ACSP. É a segunda tentativa da associação de patrocinar um cartão de crédito para os comerciantes paulistanos. A primeira, lançada há um ano, não funcionou por falta de um financiador, já que os pequenos comerciantes têm dificuldade de acesso ao crédito. A entrada da Losango deve resolver esse problema, porque é ela quem vai conceder o financiamento à clientela e assumir o risco de crédito. Haidar explica que o carro-chefe da entidade é o SPC, um dos mais importantes serviços de consulta a cadastros e cheques do país, que também é a principal fonte de renda da ACSP. Diante da tendência de substituição de cheques por meios eletrônicos, a entidade trabalha para reduzir a dependência de receitas de serviços relacionados ao cheque. O primeiro programa dentro da parceria com a Losango será o da Darco, uma rede de dez lojas da capital paulistana que vende artefatos em couro e acessórios.