Título: América Latina pode receber US$ 15 bi em 2 anos
Autor: Ricardo Balthazar e Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 03/04/2006, Finanças, p. C8

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) espera emprestar US$ 15 bilhões nos próximos dois anos para a América Latina. Empréstimos ao setor privado e condições flexíveis elevaram o total de crédito no ano passado em 17%, para US$ 7 bilhões. Os desembolsos cresceram 20%, para US$ 5,3 bilhões. "Foi um ano bom para a América Latina, com crescimento médio de 4,3% na região", diz o presidente do BID, Luis Alberto Moreno. A programação financeira para os próximos anos, segundo o relatório da instituição, privilegia crédito para investimentos em infra-estrutura. Elevar empréstimos é um feito considerável tendo em conta a redução da demanda sentida por exemplo pelo Banco Mundial (Bird), que empresta apenas para governos. Moreno concorda que o poder de fogo do BID é muito menor do que instituições como o Bird e Fundo Monetário Internacional (FMI), que são chamados a socorrer em épocas de crise. Mas o BID tem como vantagem a maior representatividade dos países em desenvolvimento na sua diretoria e flexibilidade nas regras, além da classificação de risco de crédito "triplo A", que facilita o papel de catalisador de outros credores do setor privado. Entra nessa linha a proposta de mudança de mandato da instituição para emprestar ao setor privado e a estados e municípios sem garantia dos governos nacionais. Os EUA querem que haja obrigações de empréstimos para pequenas e médias empresas no crédito ao setor privado. "Em algumas operações que fizemos com o Itaú e Rabobank, aplicamos US$ 50 milhões e investidores privados, US$ 250 milhões", diz Ciro de Falco, vice-presidente executivo do BID. "Quando você vê o volume emprestado pelo BID tem que considerar que ele mobiliza recursos privados até dez vezes maiores." A partir deste ano, o banco aumentará os empréstimos em moeda local, testados no ano passado. Os países poderão optar por diferentes formas de crédito em moeda local- converter os próximos desembolsos, as garantias ou fazer um "swap" (troca) de créditos em dólar já existentes. Nos empréstimos a governos, o BID tem sido um dos maiores financiadores dos programas de transferência de renda para população de baixa renda, com o compromisso de emprestar até US$ 1 bilhão para o programa brasileiro Bolsa Família, e apóia iniciativas semelhantes no México, Argentina e El Salvador. Desde 2000, o BID já financiou US$ 4,5 bilhões para estes projetos sociais. Além disso, tem uma linha de crédito de US$ 3 bilhões para o BNDES destinada a empréstimos a pequenas e médias empresas brasileiras. Mais da metade dos projetos financiados têm algum objetivo social. No ano passado, por exemplo, foram dados empréstimos e garantias para um programa de proteção aos igarapés em Manaus, regularização de títulos de propriedades rurais e um projeto de ecoturismo na Mata Atlântica de São Paulo. O BID financiou estradas em Minas e Espírito Santo e algumas empresas privadas, como as distribuidoras de energia Celpa (Pará) e Cemat (Mato Grosso), do Grupo Rede e um bônus da construtora Odebrecht. O Brasil é o maior tomador de recursos do BID, com uma carteira acumulada de US$ 28 bilhões em 50 anos. Os maiores projetos de infra-estrutura com apoio do banco são o Plano Puebla-Panamá, de integração regional entre o México e América Central, o gasoduto Colômbia-Panamá e uma grande refinaria na América Central, com localização ainda a ser decidida. O BID, uma instituição cuja maioria dos acionistas é de países em desenvolvimento (Brasil e Argentina têm 10,75% dos votos cada), tem uma relação mais próxima com governos de esquerda da América Latina. "Acho que essa é a década da inclusão na região, vimos a eleição de um sindicalista, uma mulher e um líder indígena para a presidência", disse Moreno, referindo-se aos presidentes Lula, Michelle Bachelet no Chile e Evo Morales na Bolívia.