Título: Meirelles recorre a gráficos para justificar a ação do BC
Autor: Ricardo Balthazar e Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 03/04/2006, Finanças, p. C8

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, apresentou e reapresentou dois gráficos nos encontros - abertos e fechados - que manteve com investidores e empresários nos últimos três dias, na reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Com um deles, que descreve a evolução da demanda agregada da economia desde 2004, Meirelles procurava rebater a crítica de que o BC fora excessivamente conservador na política monetária. Com o outro, que registrava a redução das expectativas inflacionárias, ele sinalizou que, daqui por diante, o BC seguiria seu conservadorismo para atingir o centro da meta de inflação. Durante os encontros, Meirelles foi também bastante questionados sobre qual será o grau de autonomia do BC agora que o economista Guido Mantega, um crítico da política monetária, é o ministro da Fazenda, em substituição a Antônio Palocci. "Olhando os dados, é difícil sustentar que o BC foi excessivamente conservador", disse o presidente do BC ontem numa apresentação do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês). Em alguns encontros fechados, Meirelles chamou a atenção para o fato de a demanda agregada ter crescido mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) em 2005 - a soma de consumo, investimento, gastos do governo e exportações líquidas avançou 3,2%, enquanto o PIB se expandiu 2,3% no ano. Para ele, está havendo uma "inconsistência técnica" nas críticas apresentadas sobre a atuação do BC. "A ação do BC é dirigida a controlar a demanda agregada, e, sob esse ponto de vista, a economia brasileira viveu um pouso suave", argumentou. Os números mostram que expansão da demanda saiu de um percentual pouco superior a 4% em 2004 para os 3,2% do ano seguinte, e está retomando a trajetória de 4% em 2006. O outro gráfico insistentemente apresentado pelo BC é sobre a inflação. O argumento de Meirelles é que uma política monetária cautelosa está contribuindo para que haja uma convergência entre a inflação projetada e ocorrida, o que no futuro contribuirá para reduzir o prêmio cobrado pelo mercado. "Os juros reais na economia brasileira vão cair quando todos os senhores, que tomam decisões sobre investir dentro do país, não tiverem a menor dúvida de que a inflação estará no centro da meta nos próximos dez anos", disse Meirelles a uma platéia de banqueiros e gestores de recursos. "Se a gente insistir nessa política, os juros reais vão cair." Uma questão colocada repetidas vezes foi a independência de fato do BC após Mantega assumir a Fazenda. Meirelles evitou comentar a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fazer com que o BC responda diretamente a ele, e não mais à Fazenda. "O presidente Lula nos deu independência operacional no início do governo - como ocorreu no governo passado- e não há perspectiva de mudança nisso", afirmou. "Mas é verdade que não se trata de uma independência prevista na lei, que depende de compromissos assumidos por este governo e sobre o próximo", afirmou. "Se você me perguntar se há chances de uma independência em lei, a minha resposta é franca: não sei."