Título: Consultoria de Dirceu é residência alugada a terceiros
Autor: Juliano Basile, Raquel Ulhôa e Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Valor Econômico, 24/04/2006, Brasil, p. A5
O avião em que o ex-deputado petista José Dirceu tem viajado pelo país é pago por uma empresa de consultoria de fachada. A empresa de consultoria José Dirceu & Associados S/C Ltda está sediada em um prédio residencial da avenida Jaguaré, 287, zona oeste de São Paulo. No conjunto 92 do bloco 1, onde, segundo o contrato social firmado em cartório, fica a sede da empresa, um casal reside há três anos pagando aluguel de R$ 350 mensais. Marisa Cauduro/Valor Consultoria: endereço da empresa é de apartamento residencial alugado há 3 anos
O proprietário do apartamento, segundo a inquilina, é Julio Cesar dos Santos, o único sócio de Dirceu na empresa. Ela não sabe se um dia funcionou ali um escritório, mas disse viver no local há três anos. A empresa foi aberta em 16 de setembro de 1998. Aberta com capital social de R$ 5 mil divididos em 5 mil cotas sociais, Dirceu é o acionista majoritário da empresa: detém 90% das ações, enquanto Santos possui 10%.
O objetivo da empresa, de acordo com o contrato social, é "a prestação de serviços de assessoria e consultoria técnica a empresas, organizações de classe, entidades governamentais, partidos políticos, organizações religiosas, clubes esportivos, sindicatos e organizações similares, (bem como a) organização e elaboração de cursos, palestras e seminários".
O contrato social foi elaborado pelo advogado Alceu Tatto, da família de ativistas petistas fortemente ligada à ex-prefeita, Marta Suplicy. Ao contrário dos irmãos Ênio (deputado estadual), Arselino (vereador paulistano) e Jilmar (terceiro vice-presidente do PT e ex-secretário municipal na gestão Marta), Alceu não tem cargo público. No entanto, é presidente do Barcelona da Capela do Socorro, o time de futebol ligado à família e que está na última divisão do Campeonato Paulista.Outra integrante da família Tatto, a contadora Yolanda Tatto, também está presente no contrato social, mas como testemunha.
Segundo Júlio César dos Santos, que se declarou sociólogo, simpatizante do PT e amigo de José Dirceu desde 1968, um outro imóvel, na avenida Sena Madureira, 282, foi alugado este mês para servir de escritório. A entrega das chaves teria ocorrido na semana passada, antes do feriado de Tiradentes. Santos afirmou que fará a alteração contratual do endereço assim que estiver instalado.
O sócio de Dirceu afirmou que o escritório foi concebido como uma fonte de renda para ambos no tempo em que o ex-ministro não estava ocupando nenhum cargo público, entre 1994, quando perdeu a eleição para governador em São Paulo e 1998, quando elegeu-se deputado federal .
"Nesta época, havia um escritório na rua Estado de Israel. Quando ele voltou a se eleger para cargos públicos, a firma ficou inativa. O escritório foi devolvido para o proprietário e transferi o endereço para um imóvel meu que estava vazio. Eu o aluguei há três anos. Agora, estamos tomando as providências burocráticas para voltarmos a funcionar", disse Santos.
Pelas palavras do sócio de José Dirceu, a empresa foi registrada dezenove dias antes da eleição de 1998, em que a conquista de uma cadeira de deputado por Dirceu , e a consequente colocação da empresa em um segundo plano, era praticamente certa. A atualização do endereço- do escritório que estaria sendo entregue aos proprietários para um apartamento vazio-ocorreu em 25 de março de 2002, às vésperas da eleição presidencial.
No momento em que ocorreu a viagem de Dirceu a Juiz de Fora, para encontrar-se com o ex-presidente Itamar Franco, no dia 12 de abril, a J&D Associados ainda não teria concluído a negociação para a locação de um novo escritório, iniciada na primeira semana de abril, segundo Santos, mas pagou o frete do avião particular.
Dirceu deixou o governo em junho e perdeu o mandato em 30 de novembro, acusado de comandar um esquema de corrupção implantado entre seu partido, o PT, e os partidos aliados. Foi indiciado, há duas semanas, pelo Procurador-Geral da República, Antonio Fernando de Souza, como chefe do mensalão. Não obstante tudo isso e a perda do espaço no núcleo decisório do Executivo, ainda é peça essencial nas articulações para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Vem atuando nos bastidores, encontrando-se com antigos aliados na oposição, como o senador Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) e defendendo o governo em entrevistas, seminários e fóruns de debate com militantes de esquerda. O papel do ex-homem forte do governo e do PT como conselheiro do presidente é resumido em duas frases, ditas por um mesmo ministro. "Ele tem influência zero nas decisões de Estado. Mas Lula continua com a mesma confiança nele quando o assunto é articulação política".
A atuação do ex-ministro é tratada com cuidado. A cúpula do PT nega que, oficialmente, Dirceu esteja trabalhando pela reeleição. "Ele pode ajudar, claro. Afinal, é um filiado como outro qualquer. Mas não tem nenhum mandato nem age em nome da legenda", minimizou o secretário-geral do PT, deputado Raul Pont (RS).
Um assessor do Planalto comenta que Dirceu é fundamental nas conversas com os aliados, em especial com o PMDB. "O Lula não tem paciência para isso. Além do mais, Dirceu conduziu toda a aproximação com o PMDB desde a transição. Nada mais natural que, agora, ele seja convocado novamente para a tarefa", reiterou o assessor governista.
Mas Dirceu terá que agir nos bastidores, para não atiçar a oposição. Ele mesmo confidenciou essa estratégia à líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC). "Me encontrei com ele em Santa Catarina e ele me disse: vou ajudar onde me pedirem e houver solicitação", revelou a parlamentar. O "consultor político", segundo Ideli, é uma figura fundamental no projeto do PT. "Ele é uma das melhores cabeças que nós temos, com grande capacidade. A oposição sabia da estatura de Dirceu", diz a senadora.
Por isso, sua contribuição terá que mudar. "Dirceu não vai mais coordenar, colocar o rosto no front. Ele sabe e todos nós sabemos que o papel dele tem delicadezas que precisam ser respeitadas", diz Ideli. O ex-presidente da legenda esteve duas vezes no estado de Ideli, nas últimas semanas, para participar de debates.
No governo, Dirceu já não influencia mais. Um líder governista comparou: "Há um mês, eu pedi uma ajuda para ele e Dirceu garantiu que daria uns telefonemas e me retornaria. Até agora, nada. Quando ele era ministro, questões importantes eram resolvidas em dois, três dias", comparou.