Título: Lula repete isolamento de 2002 nos Estados
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 24/04/2006, Política, p. A8
A verticalização das coligações e a aposta na aliança preferencial com o PMDB isolou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos Estados. O presidente irá tentar a reeleição em situação semelhante a de 2002, em que se apoiou nas candidaturas a governador do próprio PT. A situação do candidato do PSDB, o ex-governador paulista Geraldo Alckmin, é melhor: já estão fechadas alianças entre PSDB e PFL em oito Estados, entre eles São Paulo e Minas Gerais.
Além dos dezoito candidatos próprios do PT , Lula por ora tem alianças com o PMDB em apenas cinco Estados. Nos dois maiores -Pará e Bahia- os pemedebistas locais estão fragilizados e devem apoiar candidatos a governador do PT. Os demais são Estados de importância eleitoral menor: Roraima, Tocantins e Amazonas. Os petistas devem apoiar o PSB no Rio Grande do Norte, Maranhão , Goiás e Ceará. Devem fechar com o oposicionista PDT no Amapá e estão sem rumo em Alagoas.
Segundo dirigentes petistas, não se esperava que a divisão nacional existente no PMDB se reproduzisse com tamanha força nos Estados. Um exemplo é o de Minas Gerais. Apostando na aliança com o partido, o PT manteve em Brasília seu nome com maior densidade eleitoral, o do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias.
Mas o PMDB se divide entre as correntes do ministro das Comunicações, Hélio Costa, do ex-presidente Itamar Franco e do ex-governador Newton Cardoso. Apenas o primeiro defendeu a coligação com os petistas. A aliança ficou inviabilizada e o PT deve escalar o ex-secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, para enfrentar o governador tucano Aécio Neves.
Outros casos citados são o de Goiás e o de Rondônia. O PT tende a apoiar o PMDB, se os candidatos pemedebistas nestes Estados forem os senadores Maguito Vilella (GO) e Amir Lando (RO). Mas ambos são contestados dentro de suas siglas e a aliança com o PT ficou fragilizada.
Há também os casos em que a divisão do PT trabalhou para o afastamento em relação ao PMDB. No Paraná, o governador Roberto Requião, que apoiou Lula em 2002, contava com o apoio de uma ala do petismo, mas os adversários locais do PMDB prevaleceram quando o PT renovou sua direção e lançaram uma candidatura própria contra o governador. Requião afastou-se dos petistas e começou a ser cortejado por uma ala do PSDB.
Na trincheira tucana, criou-se uma assimetria: o PSDB deverá receber o apoio do PFL em sete Estados, mas a reciprocidade só está assegurada em Pernambuco. "Depois de receberem a prefeitura de São Paulo com direito a disputar a reeleição, não tem porque o PSDB sacrificar-se no resto do País", afirmou o presidente do Instituto Teotônio Vilella - órgão de estudos do partido- o deputado federal Sebastião Madeira (MA), referindo-se ao caso paulista, em que José Serra renunciou à prefeitura de São Paulo, entregando-a para o pefelista Gilberto Kassab. No Maranhão, Madeira apoiará o pedetista Jackson Lago, contra a pefelista Roseana Sarney.
Coordenador pefelista da campanha presidencial, o senador Heráclito Fortes (PI) afirma que a negociação será acelerada agora, mas dentro de limites. "Vale a pena a candidatura única desde que não tenhamos que passar pelo trauma da intervenção, seja para impor candidatos a governador, seja para fazer o mesmo em relação ao Senado", afirmou o pefelista.
Sem perspectivas de união regional, Alckmin deverá se organizar para ter palanque duplo na maioria dos Estados. "O candidato presidencial só tem a ganhar com a duplicação. O problema existe quando tucanos e pefelistas comandam as alas que disputam diretamente o controle do poder ", afirmou o secretário-geral do PSDB, deputado Eduardo Paes (RJ), que será lançado hoje como candidato a governador do Rio , sem o apoio do PFL.
Os três Estados em que a divisão entre tucanos e pefelistas é mais profunda são Bahia, Sergipe e Goiás e Alagoas. "Nestes casos, o Alckmin vai fazer visitas separadas nos Estados, ou até mesmo nem aparecer onde existir conflito", afirmou o deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL), que apóia o petebista João Lyra em Alagoas, contra o tucano Teotônio Vilella Filho. Em ambos os casos, contudo, os tucanos estão sem candidato a governador para enfrentar Paulo Souto (BA) e João Alves (SE), que tentam a reeleição.
O fenômeno do palanque duplo é raro entre os aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta divisão deve ocorrer , a princípio, em quatro Estados: Pernambuco, com Humberto Costa (PT) e Eduardo Campos (PSB); Rio de Janeiro, com Marcello Crivella (PRB) e Vladimir Palmeira (PT); Tocantins, com Marcelo Miranda (PMDB) e Leomar Quintanilha (PCdoB) e Distrito Federal, com Arlete Sampaio (PT) e Agnelo Queiroz (PC do B).
Caso o PMDB tenha candidatura própria à presidência, tanto Alckmin quanto Lula devem perder espaço nos Estados. A verticalização reforça as alas do PT e do PSDB que favorecem candidaturas próprias e são refratárias às coligações brancas, em que os candidatos fazem parcerias informais na campanha.
"Isto é visto como coisa imoral pelo eleitor, é um preço que não vale a pena pagar", disse o ex-governador do Mato Grosso, o tucano Dante de Oliveira, que disse que o PSDB local não deve apoiar o governador Blairo Maggi (PPS) ou o deputado estadual José Carlos do Pátio (PMDB), caso estes partidos tenham candidato a presidente.