Título: Bastos diz que assessores recusaram pedido de Palocci por investigação da PF
Autor: Juliano Basile
Fonte: Valor Econômico, 04/04/2006, Política, p. A6

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, procurou, ontem, manter o governo e a equipe de seu ministério longe de qualquer culpa no escândalo da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa. Durante evento no Rio, Bastos negou que dois assessores diretos de sua equipe tenham participado da operação ilegal e procurou enfatizar que determinou a apuração do caso pela Polícia Federal. Flavio Florido/Folha Imagem Os assessores são: Daniel Goldberg (secretário de Direito Econômico) e Cláudio Alencar (chefe de gabinete de Bastos). Eles foram à casa do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, na noite de 16 de março passado - a mesma em que o ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, entregou a Palocci o extrato bancário do caseiro. Bastos afirmou que os assessores receberam de Palocci um pedido para que a PF investigasse o caseiro e foram embora. Os dois não tiveram acesso ao extrato bancário de Francenildo. Eles viram Mattoso entrar da residência do então ministro da Fazenda, e confirmaram essa informação em depoimentos prestados à PF, no domingo passado. Para o ministro da Justiça, Goldberg e Alencar "não são testemunhas de nenhuma irregularidade". Pelo contrário, eles se dispuseram a prestar depoimentos à PF sobre o caso. "Eles não assistiram a nenhuma quebra de sigilo nem a nenhum vazamento de sigilo. Eles simplesmente foram lá (na casa de Palocci) e receberam um pedido (para que a PF investigasse o caseiro), que não quiseram atender", resumiu. O ministro elogiou a PF que conseguiu fazer as investigações "com amplitude" e "num tempo recorde". "Numa semana, praticamente 80% da questão foi resolvida em termos de materialidade e autoria. Resta agora continuar essa investigação. Posso dizer que o governo federal cumpriu sua obrigação desde o primeiro momento", enfatizou Bastos. O ministro disse que não há razões para que ele deponha nas investigações da PF. Bastos estava em Rondônia no dia 16. Segundo a sua assessoria, o ministro voltou a Brasília um dia depois e soube da quebra de sigilo pela imprensa. A PF também não vê razões para o depoimento de Bastos. Policiais envolvidos nas investigações disseram que, se fosse necessário ouvi-lo, o convocariam, pois "a PF é órgão de Estado, e não de governo". Mas, consideram que as investigações estão bastante adiantadas e que faltam poucos depoimentos para solucionar o caso em definitivo. São: o depoimento de Palocci e de seu assessor de comunicação, Marcelo Netto. Goldberg confirmou à PF que Netto estava na residência do então ministro da Fazenda na noite em que Mattoso entregou o extrato. Palocci deverá depor amanhã. Quanto a Netto, a PF tentou intimá-lo a depor, mas ele não foi encontrado ontem. Mesmo sem ter prestado depoimento, Palocci deverá ser indiciado pela PF pelos crimes de quebra de sigilo funcional e abuso de poder. As declarações de Bastos, segundo avaliam membros do governo, levam a um isolamento de Palocci e Netto no episódio do caseiro, eximindo o resto do governo. Apesar disso, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), apresentou ontem requerimento de convocação do ministro da Justiça, para que preste esclarecimentos no plenário sobre a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. "Não estou dizendo que ele é culpado, por isso não estou propondo que ele seja convocado para falar na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos, porque não acho que deva ser tratado como réu, mas ele tem explicações a dar, olho no olho do Brasil", afirmou o tucano. O PPS já havia apresentado, na semana passada, requerimento à Câmara. O ministro da Coordenação Política, Tarso Genro estréia no cargo já tendo que apaziguar ânimos. Hoje, ele almoça com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Roberto Busato, um dos maiores críticos do governo. Busato somou-se ontem àqueles que defendem que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, compareça ao Congresso para explicar seu suposto envolvimento no escândalo de quebra de sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa. "O ministro Márcio Thomaz está disposto a prestar todos os esclarecimentos necessários. Mas convocações para CPIs têm que se basear em fatos concretos, não em discursos retóricos". Hoje, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), reúne os líderes partidários para discutir o encaminhamento do requerimento de convocação do ministro. (Colaborou Raquel Ulhôa)