Título: Enfim, um bravo ao BC!
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 25/04/2006, Brasil, p. A2
É curioso como a opinião de alguns economistas evoluiu nos últimos três ou quatro meses. Até então afirmavam, "cientificamente", que o Brasil não poderia crescer mais do que 3,5% (o estimado "produto potencial") sem acelerar a inflação. E é divertido assisti-los, agora, a procurar argumentos (obviamente "científicos") para justificar a "ameaça" de crescimento do PIB de 4% este ano, com redução da taxa de inflação.
O Banco Central (com a justificativa que tem havido "algum investimento") abandonou o mito do produto potencial de 3,5% e prevê um crescimento de 4% para 2006, com uma taxa de inflação dentro da meta de 4,5%. Aquele "mito", e a fixação de metas ambiciosas, levou-o (por obrigação de ofício), a realizar uma pesada política monetária, que derrubou o crescimento do PIB de 4,7% (no fim de 2004) para 1,4% no fim de 2005. Na média do ano, o crescimento do PIB foi reduzido de 4,9% em 2004 para 2,3% em 2005.
Para "sentir" que a previsão do Banco Central está dentro das possibilidades normais da economia brasileira, observemos com alguma atenção o gráfico abaixo.
No eixo horizontal são medidas as variações anuais do PIB entre um trimestre do ano e o seu homólogo do ano anterior, e no eixo vertical são medidas as variações anuais do core do IPCA por exclusão, também entre o mesmo trimestre e o seu homólogo do ano anterior. Por exemplo, o ponto 4 tri/2004 revela o crescimento de 4,7% entre o quarto trimestre de 2004, contra o quarto trimestre de 2003 e, também, a taxa de inflação anual registrada entre os mesmo trimestres, que foi de 7,9%. Cada ponto, portanto, revela o crescimento verificado num ano (entre o trimestre e o seu homólogo do ano anterior) e a taxa de inflação registrada no mesmo ano. Com esse expediente estatístico, multiplicamos por quatro (observações dos trimestres) para obter o PIB de cada ano.
Antes de passar à análise do gráfico chamamos a atenção para dois fatos. Primeiro, as observações de 1998 e do primeiro trimestre de 1999 (onde o PIB variou de -2% a 2%, com taxas de inflação inferiores a 2% revelam os efeitos do câmbio controlado. Segundo, as observações do quarto trimestre de 2002 até o terceiro trimestre de 2003 mostram a perturbação causada pela sucessão presidencial.
Todas as outras 29 observações de crescimento anual do PIB e da inflação correspondente encontram-se dentro da curva elíptica, cujo eixo maior mostra a tendência de crescimento da taxa de inflação (medida pelo core por exclusão para reduzir a sua variância) quando cresce o PIB. Grosseiramente, o crescimento anual de 1% do PIB aumenta a inflação em torno de 0,4%, mas, como é evidente pelo gráfico, a relação é pouco precisa. Por exemplo, tivemos reduções de até 1% do PIB, com inflação variando de 2,5% a 5,5%. E aumentos entre 5% e 6% do PIB, com inflação variando entre 6% e 8%!
Das 29 observações anuais (de cada trimestre contra seu homólogo do ano anterior), em 13 delas (quase 50%), tivemos crescimento superior a 3,5%, com taxas de inflação variando entre 3% e 8%. Não há, portanto, como aceitar a idéia que o "produto potencial" é de 3,5%.
Essa análise estatística pedestre e impressionista revela alguns problemas interessantes:
1) parece existir uma inflação inercial da ordem de 5%, mesmo quando o crescimento do PIB é nulo, o que sugere a necessidade de reformas microeconômicas e de apoio à infra-estrutura, além de mais abertura econômica, que reduzam o custo e aumentem a competição;
2) parece existir mesmo o problema da X-eficiência levantado por H. Leibenstein ("General X-Efficiency Theory and Economic Development", 1978), que rejeita a hipótese de máxima eficiência técnica com maximização dos lucros ou minimização dos custos, como querem os neoclássicos, por um processo de acomodação em que cada trabalhador acaba escolhendo, tudo o mais constante, o nível de esforço que lhe é mais confortável;
3) falta, na história, um fator fundamental ignorado pelo "produto potencial" e pelos neoclássicos, que é o empresário. Quando existe demanda, o seu "espírito animal" estimula o aumento da eficiência pelos incentivos aos trabalhadores, pela ampliação das horas extras de trabalho, pelo aumento de turnos e por pequenos investimentos que melhoram a produtividade. Se o "estresse" de demanda persiste, o empresário destina os seus lucros para o aumento da capacidade produtiva, realizando novos investimentos, maiores à medida que ela se aproxima do limite superior.
Vemos pelo gráfico, que o objetivo do Banco Central (4,5% de inflação com um crescimento de 4% do PIB) está dentro das probabilidades limitadas pela elipse. Bravo! Vamos realizá-lo, juntamente com o prometido superávit primário de 4,25%.