Título: Mantega reafirma continuidade
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 04/04/2006, Finanças, p. C1
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, esmerou-se ontem para convencer uma platéia de banqueiros, empresários e investidores que não haverá mudanças nas linhas mestras da política macroeconômica, durante a reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Mas sua apresentação acabou por deixar clara a sua falta de sintonia com o que tem sido feito pelo Banco Central em duas áreas chaves: as políticas cambial e monetária. Antes de iniciar sua extensa apresentação sobre a economia brasileira, Mantega fez questão de dirigir um recado direto à comunidade financeira. "Posso adiantar que nada vai mudar", disse. "A política não é de um ministro, é do governo Lula." O primeiro deslize de Mantega foi quando tocou no assunto câmbio, ao comentar a farta liquidez ao país. "Temos uma sobra de US$ 30 bilhões, que causa até uma certa dor de cabeça ao BC para que o real não se valorize além do razoável." Com suas palavras, Mantega sugeriu aos investidores que o BC defende um nível mínimo de câmbio, o que vem sendo veementemente negado pela autoridade monetária. O discurso oficial do BC é que intervenções no câmbio ocorrem para acumular reservas e melhorar os fundamentos externos da economia, e não defender um piso para o dólar, o que seria conflitante com o regime de câmbio flutuante. A falta de sintonia da Fazenda com o BC ficou mais clara quando Mantega se referiu à política monetária. Questionado por um economista se os juros internos no país estariam muito altos, o ministro procurou não fazer juízos de valor sobre movimentos futuros na taxa - disse apenas acreditar na continuidade da tendência de baixa -, mas questionou o acerto do mais recente ciclo de aperto monetário. "Esse governo fez a opção de debelar de uma vez a inflação", afirmou. "Se houve exagero ou não, isso é coisa do passado." O ministro defendeu a tese de que a pressão inflacionária ocorrida em fins de 2004 foi causada pelo aumento de cotações de commodities e de preços administrados, não de eventuais desbalanços entre oferta e demanda. Não é essa a opinião do BC. Durante todo o ciclo de alta de juros, a autoridade monetária deixou clara a preocupação com os sinais de que a economia crescia acima do potencial. Mantega foi além na sua exposição, ao sugerir que a oferta agregada na economia é flexível de forma a atender demandas crescentes. "Se você tem demanda, se você estimula o empresário - eu posso crer isso a partir da experiência que eu tive no BNDES - rapidamente o empresário consegue aumentar a capacidade instalada", sustentou Mantega. "Ou ele introduz o terceiro turno de trabalho ou ele compra uma nova máquina, ou faz uma racionalização na sua produção e com isso rapidamente reage a um estímulo de demanda. Isso aconteceu no Brasil em 2004, e a capacidade instalada acompanhou o ritmo de crescimento." O ministro, com essas palavras, sugeriu que o Brasil tem uma curva de oferta completamente horizontal - ou seja, é possível oferecer quantidades crescentes de produtos no curto prazo sempre com o mesmo preço. O paradigma com o qual o BC trabalha, entretanto, é o de uma curva de demanda inclinada, na qual aumento de oferta ocorre com preços cada vez maiores, provocando inflação. As opiniões de Mantega não se constituem, porém, fator desestabilizador, já que seus poderes para influenciar o BC são limitados ou nulos, após o presidente Lula decidir que a instituição estaria, daqui por diante, diretamente vinculada a ele. No essencial, que compete à Fazenda, Mantega disse o que os investidores esperavam ouvir: que o cumprimento da meta de superávit primário de 4,25% do PIB será cumprida. Ele, porém, voltou a sinalizar que não vê necessidade em uma nova reforma da Previdência - e esclareceu pouco sobre o que poderia ser uma segunda geração de reformas. Fora a apresentação pública, Mantega conversou em privado com o presidente do Citigroup, Willian Rhodes. "Ele disse que as política econômica não será mudada porque dá resultados."