Título: Captação no 1º trimestre supera biênio 2004 e 2005
Autor: Danilo Fariello
Fonte: Valor Econômico, 04/04/2006, EU &, p. D2
Os fundos de investimento receberam no primeiro trimestre deste ano R$ 38,6 bilhões, valor superior à soma da captação líquida durante todo o ano de 2004 e de 2005 juntos, segundo o site Fortuna. O total aplicado no setor, menos os resgates, foi de R$ 11,6 bilhões em 2004 e de 23 bilhões em 2005. Marcelo D'Agosto, sócio do Fortuna, destaca que o forte volume de depósitos é resultado de vários fatores, mas, principalmente, da queda dos juros. Assim como no segundo semestre de 2003, ano em que o setor atingiu o recorde de R$ 54,3 bilhões de captação, neste trimestre foi verificada uma clara tendência de redução da taxa básica. "Isso aumenta o rendimento dos fundos mais agressivos e o apetite dos aplicadores em depositar mais", diz D'Agosto. Outro estímulo ao crescimento dos depósitos foi a isenção de impostos concedida a estrangeiros que invistam em fundos por aqui. Cerca de R$ 4 bilhões foram depositados só em um fundo administrado pelo Citibank dessa categoria, segundo o Fortuna. Também foi forte o volume de aplicações dos fundos de pensão no setor. Na comparação, deve ser ponderado, contudo, que a captação dos fundos em 2004 e 2005 foi abalada por um processo de elevação dos juros e por um esforço maior dos bancos em emitir CDBs - concorrentes dos fundos -, para financiar a expansão do crédito, diz Aquiles Mosca, estrategista de investimentos da ABN Amro Asset Management. "Por isso, as bases de comparação são baixas", diz ele. Com o juro em queda, o investidor passa a buscar alternativas mais agressivas que, fatalmente, encontram-se em fundos, diz Mosca. "No ABN, até 40% dos novos recursos investidos tiveram destino as carteiras de gestão ativa, que buscam superar o juro corrente." Se a Selic continuar a cair, a tendência será que a captação se intensifique, avalia o executivo. Com exceção das carteiras cambiais, que perderam R$ 293 milhões de janeiro a março, todas as demais categorias apresentaram captação, algo bastante incomum. Os principais destaques foram a renda fixa, com ingresso de R$ 14,9 bilhões, e os multimercados, com R$ 10,4 bilhões. Segundo o Fortuna, também os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) e as carteiras de privatização de recursos próprios tiveram captação elevada. D'Agosto diz que os investidores que mais aplicaram recursos novos em fundos nesse período foram os aplicadores de varejo de alta renda, os fundos de pensão e os estrangeiros. A estima é feita a partir do perfil de público a que se destina cada fundo. Os multimercados, principais estrelas do setor em termos de retorno nos últimos meses, tiveram recuo na rentabilidade nas últimas semanas. Rafaela Vitória, superintendente de "wealth management" do BankBoston, destaca que muitos multimercados fecharam março com prejuízos. "O mercado esteve mais volátil", explica ela. Vários fatores contribuíram para isso, diz ela: a bolsa recuou, o dólar subiu e os títulos atrelados ao IPCA não se valorizaram. A combinação oposta desses três fatores foi a principal fonte de valorização dessas carteiras de dezembro a fevereiro. O recuo é normal, porque os fundos têm volatilidade alta, diz ela. "Anormais foram os meses consecutivos de forte valorização." Para Rafaela, essa oscilação é até positiva, porque expõe ao investidor o caráter volátil da aplicação. Segundo Delano Franco, diretor da Mellon Global Investment do Brasil, o segmento dos multimercados é cíclico, "por isso é preciso aplicar com objetivo em prazos mais distantes". Para ele, esse sobe-e-desce mostra ao investidor que é preciso aceitar mais risco para obter rentabilidade maior. No longo prazo, os multimercados continuam a apresentar uma tendência de valorização acima da taxa de juros, diz Rafaela. Franco acrescenta que, conforme o juro cair mais, deverá aumentar a procura por fundos diferenciados, como os multimercados.