Título: Palocci depõe à PF em sua casa e nega ser mandante de quebra de sigilo
Autor: Juliano Basile
Fonte: Valor Econômico, 05/04/2006, Política, p. A10

O ex-ministro Antonio Palocci foi indiciado ontem por violação de sigilo funcional do caseiro Francenildo Costa pela Polícia Federal, depois de prestar depoimento em sua residência, na Península dos Ministros. Palocci negou à PF que tenha sido autor ou mandante da quebra de sigilo. "Isso é rigorosamente falso", disse à noite o advogado do ex-ministro, José Roberto Batocchio. Segundo o advogado, o ex-ministro procedeu "de acordo com regras governamentais". Pela versão do advogado, apresentada à Polícia Federal, o ex-ministro foi informado de uma movimentação financeira atípica do caseiro pelo então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso. Palocci teve uma reunião com Mattoso no dia 16 de março para tratar da abertura de escritórios da Caixa no Japão e nos Estados Unidos. No fim desse encontro, Palocci teria dito a Mattoso que poderia ser localizado em sua casa no período da noite, onde costumava trabalhar depois de deixar o ministério. Batocchio disse que setores que o ministro não soube identificar informaram Mattoso de movimentações atípicas na conta de Francenildo. Nesse momento, Palocci teria respondido: "Proceda de acordo com as regras governamentais". Ainda segundo a versão do advogado, Palocci então dirigiu-se à sua residência, onde tinha um encontro com o secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, Daniel Goldberg, e o então assessor de imprensa do Ministério da Fazenda, Marcelo Netto. O encontro seria para tratar da possível remessa do inquérito aberto contra Palocci em Ribeirão Preto para o Supremo Tribunal Federal, pois como ministro, Palocci tinha foro privilegiado. Batocchio afirmou que Palocci procurou Goldberg porque o ministro da Justiça, Márcio Thomza Bastos, não estava em Brasília. De acordo com o advogado, Goldberg e Netto não tiveram acesso ao extrato bancário de Francenildo. Palocci teria se encontrado com Mattoso por menos de cinco minutos, tempo suficiente, segundo o advogado, para ver o extrato e determinar a Mattoso que procedesse de acordo com a lei. Batocchio explicou que presidentes de bancos têm a obrigação de comunicar ao Coaf movimentações financeiras atípicas. "Quando o assunto está envolvido em celeumas políticas tem características especiais", disse, justificando o fato de o extrato bancário do caseiro, mostrando movimentação de R$ 25 mil, ter ido parar nas mãos do ministro. Palocci não atribuiu em seu depoimento à PF qualquer crime ou culpa no episódio do caseiro a Thomaz Bastos, Goldberg ou Marcelo Netto. "Ele não atribuiu ao ministro da Justiça nenhuma responsabilidade", disse Batocchio. "O ministro não entregou a ninguém a cópia do extrato", reafirmou. O advogado disse que a versão de Palocci não é distinta da de Mattoso. O ex-presidente da Caixa, em depoimento à PF, na semana passada, teria dito ao delegado que entregou o extrato a Palocci, mas não que o ministro o teria pedido. Batocchio disse que Palocci sente-se injustiçado e está doente, por isso depôs em sua residência, com eletrodos no peito. Marcada para as 17h, a entrevista do advogado só aconteceu às 22h. Simultaneamente, corria o boato de que Thomaz Bastos estaria demissionário. "O ministro não está demissionário", garantiu o porta-voz do Palácio do Planalto, André Singer.