Título: Okamotto nega ter pago contas de Lula
Autor: Thiago Vitale Jayme
Fonte: Valor Econômico, 05/04/2006, Política, p. A12
O presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, usou as prerrogativas concedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), calou-se sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se negou, por três vezes, a concordar com a quebra de seus sigilos bancário e fiscal pela CPI dos Bingos na tarde de ontem. "Nós temos direitos individuais que a Constituição garante. Só se quebra sigilo de alguém quando há uma acusação grave contra essa pessoa", afirmou o petista, acusado de ter pago uma dívida de R$ 29,4 mil de Lula com o PT. Okamotto participou de acareação com o ex-militante do PT Paulo de Tarso Venceslau, que acusa o presidente do Sebrae de organizar esquema de recolhimento de doações para o caixa 2 em prefeituras do interior de São Paulo e de cuidar das finanças de Lula. "Ele sempre foi conhecido como o representante de Lula", disse Venceslau, diversas vezes. Okamotto calou-se sobre Lula durante toda a acareação. Mas permitiu-se negar as acusações de pagar as contas do presidente: "Eu nego que seja pagador dessas contas". No restante do tempo, disse que estava ali para tratar da "acareação e vou ater-me a isso". O presidente do Sebrae resistiu às pressões dos senadores para abrir seus sigilos bancário e fiscal. "Queria que o senhor dissesse que são mentirosos todos aqueles que dizem que o senhor paga as contas de Lula. Queria que o senhor abrisse o seu sigilo para provar a todos que não passam de mentirosos", reivindicou o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN). O líder do PDT, Jefferson Péres (AM), seguiu a mesma linha. "A quebra de sigilo bancário tornou-se uma questão relevante no âmbito nacional. Não é mais apenas a vida de vossa senhoria (Okamotto) que está em jogo. É o futuro do seu amigo dileto, o presidente do Brasil. Quando perguntarem a Lula, em um debate durante a campanha, sobre as contas pagas, ele vai desmoronar. Pondere esse seu posicionamento", pediu o pedetista. Por fim, o petista Eduardo Suplicy (SP) também deu a entender que deveria ser aberto o sigilo. Okamotto não se sensibilizou pelas reivindicações. Aos senadores, deu a mesma resposta: "O senhor está emitindo uma opinião sobre como eu devo agir. Vou refletir sobre isso". O presidente da CPI, Efraim Moraes (PFL-PB), criticou o comportamento de Okamotto. "Se ele atendesse à solicitação da CPI, a CPI dos Bingos teria algo a dizer ao Brasil. Com certeza, ele tem algo a dizer. Ele vai lutar com todas as forças para evitar a quebra", disse o senador. O pefelista não descarta novo pedido de quebra de sigilo do presidente do Sebrae. O relator da comissão, Garibaldi Alves (PMDB-RN), prevê o indiciamento de Okamotto caso ele insista em evitar a quebra do sigilo. "Vou aguardar os acontecimentos, mas se essa situação permanecer a tendência é que ele seja indiciado", disse. A acareação entre Venceslau e Okamotto foi tensa. Ex-amigos e ex-companheiros de partido, ambos deixaram transparecer mágoas passadas. Venceslau atribui a Okamotto sua exoneração do cargo de secretário de Planejamento de São José dos Campos, em 1993, quando a prefeita da cidade era a deputada Ângela Guadagnin, hoje deputada federal pelo PT de São Paulo. Disse que o petista pedia aos prefeitos uma lista com a relação dos fornecedores das prefeituras para organizar o recolhimento de dinheiro para o caixa 2. Okamotto, segundo Venceslau, queria a cabeça do colega por conta de suas denúncias. Na época, Venceslau acusou a empresa Cepem, ligada a Roberto Teixeira, de ser beneficiadas em cidades administradas por petistas. Teixeira é muito amigo do presidente da República - durante anos, Lula morou em uma casa do compadre. A empresa teria facilidade de firmar contratos nessas cidades e, em troca, colaboraria com o caixa 2 das campanhas políticas do PT. "Em 1993, quando eu investigava a Cepem e fiz relatei o que estava acontecendo em uma reunião de secretários das prefeituras do PT, o Okamotto disse que eu estava falando demais. Logo depois fui demitido", afirmou. O petista se defende. "Ele fazia ilações de que Lula tinha algo a ver com as irregularidades da Cepem. Eu disse que ele estava sendo deselegante e grosseiro com nosso presidente", afirmou. A lista de fornecedores, segundo ele, serviria para ampliar a agenda de contatos do partido.