Título: Mercado desliga-se da crise política
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 05/04/2006, Finanças, p. C2
O mercado financeiro desligou-se completamente da chamada "crise política". A acareação promovida ontem na CPI dos Bingos entre o presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, e o ex-militante petista Paulo de Tarso Venceslau mereceu audiência mínima e entediada. As notícias sobre o destino do ex-ministro Antonio Palocci também não despertam atenção. E a promoção do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, à "bola da vez" das denúncias da oposição só arranca bocejo. Nada disso interessa mais aos mercados. A importante lição colhida, na semana passada, da troca de piloto da economia foi que, em hipótese alguma, o avião presidencial sairá, mesmo que levemente, do curso ultra-ortodoxo traçado há três anos e três meses. E as eleições de outubro serão decididas entre dois candidatos amigos do mercado. Até lá, os ajustes requeridos serão mínimos, a questão é mais de sintonia fina, de introdução de aperfeiçoamentos na dosagem exata do que de mudanças.
-------------------------------------------------------------------------------- Banco zera posição comprada e dólar cai --------------------------------------------------------------------------------
A calmaria foi geral ontem. O dólar fechou em baixa de 0,18%, cotado a R$ 2,1360. A queda só não foi maior porque o Banco Central fez leilão de compra às 15h10. Aceitou 12 propostas a R$ 2,1330. Interrompidas na semana passada, as compras oficiais, destinadas a aumentar as reservas internacionais, cujo montante de US$ 59,8 bilhões é considerado insuficiente pelo FMI, ajudam os bancos a se livrarem das incômodas posições compradas à vista. Até a semana passada, as instituições carregavam cerca de US$ 2,8 bilhões. E começaram a devolver os dólares esta semana. Sem a presença do BC, a inversão de posição provocaria o desabamento do dólar e perdas às instituições. Logo, o mercado irá testar a barreira de R$ 2,10. Em março, este piso mostrou-se insuperável porque foi nele que os bancos montaram as posições compradas. Precisavam, portanto, defendê-lo para não arcar com prejuízos. Assim que os R$ 2,10 forem rompidos será sinal de que o mercado já se desfez das compras. A partir daí, o sinal para a queda estará plenamente verde. As ameaças externas são remotas. O presidente do Fed de Richmond, Jeffrey Lacker, disse ontem que a economia americana registra crescimento saudável e com a inflação controlada. E o juro está muito próximo do equilíbrio. Sem justificativas macro, o carregamento de caixa em dólar torna-se excessivamente pesado: em cima dele, aloja-se o maior juro real do mundo, de 10%. O crescimento da produção industrial em fevereiro, de 1,2%, acima das projeções dos economistas, recoloca a retomada da economia em linha com o cenário principal desenhado pelo BC - indício de que o desaperto monetário prosseguirá lento e conservador. Foi o que entendeu ontem o mercado futuro de juros da BM&F. Os contratos mais negociados, relativos às próximas viradas de ano, ajustaram-se para cima. O referente a janeiro de 2007 avançou de 14,86% para 14,87%. O CDI previsto para janeiro de 2008 subiu de 14,54% para 14,58%. O swap de 360 dias permaneceu no piso histórico de 14,75%.