Título: Ministros destacam "vigor e solidez do crescimento" na posse de Fiocca
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 06/04/2006, Brasil, p. A3
A solidez e vigor do crescimento econômico no Brasil estão sustentadas na forte expansão dos mecanismos de financiamento ocorrida nos últimos anos, declarou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao saudar o novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Demian Fiocca. Mantega, Fiocca, e o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, a quem o BNDES é formalmente subordinado, adotaram um tom de camaradagem e de compromisso com uma política desenvolvimentista na cerimônia de posse, ontem, em Brasília. "Se não tivesse havido no país uma verdadeira revolução no sistema de crédito, talvez não estivéssemos observando esse vigor, essa solidez do crescimento que está se configurando no Brasil neste momento", comemorou Mantega, ao se referir à criação de novos programas de financiamento ao setor privado e aos consumidores nos últimos três anos. Fiocca disse esperar um crescimento de 20% nos desembolsos do banco neste ano, em relação aos R$ 47 bilhões do ano passado, que já representaram um crescimento de 18% em relação a 2004. Ele lembrou que as aprovações de projetos pelo banco, que expressam a demanda por crédito, já subiram, em 2005, de R$ 37 bilhões para R$ 54 bilhões. "Conseguimos responder ao desafio que está sendo colocado para o Brasil nesse novo ciclo de crescimento", disse Mantega, insistindo na tese de que o país iniciou, em 2005, um ciclo sustentável de crescimento das atividades econômicas, que será reforçado com a queda progressiva das taxas de juros. Furlan, muito bem humorado, saudou a passagem de Guido Mantega pela presidência do BNDES, onde Fiocca, até a semana passada ocupava o cargo de vice-presidente. "O que une a nós três é que não somos de discurso, somos mais do time dos fazedores" , brincou Furlan. "A ida de Guido ao BNDES foi o momento de maior convergência das política industrial, de comércio exterior e de ciência e tecnologia", elogiou o ministro, que teve atritos sucessivos com o antecessor de Mantega, Carlos Lessa. Furlan lembrou que o BNDES teve, em 2005, os melhores resultados da história da instituição. "O banco, após esse período com o Guido, chegou a um completo alinhamento com as políticas nacionais de desenvolvimento." Entusiasmado, Furlan elogiou Fiocca e reafirmou a meta de garantir o crescimento anual de 5% para o Produto Interno Bruto (PIB), a medida das riquezas criadas no país anualmente. Chegou a se confundir e falar em esperança de bons resultados para a equipe nos próximos nove anos ("nove meses", corrigiu-se, em seguida, entre risos dos funcionários dos dois ministérios e do BNDES). Furlan enfatizou a importância dos planos do BNDES para apoio ao chamado "venture capital", investimentos destinados a apoiar empresas emergentes ou de alto risco e grande potencial. O ministro lembrou que esse tema era atribuição do ex-diretor Carlos Kawall, nomeado por Mantega para a Secretaria do Tesouro. "Espero que agora, como maior acionista do banco, ele, no tesouro, continue com o mesmo microprocessador", brincou Furlan. Fiocca disse que o BNDES continuará dando prioridade, com crédito mais baixo, para os setores que considera ter "externalidades positivas", efeitos benéficos sobre toda a economia. Por isso, os setores prioritários para o banco serão os vinculados à inovação tecnológica e à área de infra-estrutura, especialmente à geração de energia elétrica. "Nossa expectativa é de continuidade da expansão, inclusive pelo fato de que a economia retomou a trajetória de crescimento iniciada em 2004, que teve um ajuste de arrumação no ano passado", comentou. O otimismo de Fiocca é enfaticamente compartilhado por Mantega, que, ao sair do Ministério da Fazenda para a posse do amigo e ex-auxiliar, disse não ver "conjunção mais favorável para um ministro da Fazenda do que a atual". "Está tudo dando certo; então, não há nenhuma razão para mudar a política econômica", afirmou ele, em mais uma manifestação voltada a dar tranqüilidade aos mercados. Como confirmação de suas previsões de "crescimento robusto no céu do país", ele lembrou os últimos dados sobre produção industrial, que apontaram forte aumento na atividade do setor em fevereiro. Com base no que aconteceu no primeiro bimestre, ele disse projetar para o ano uma expansão de 6% na indústria, o que vai impulsionar a economia como um todo. Esses dados, diz ele, reafirmaram sua convicção de que o PIB crescerá pelo menos 4,5% em 2006. Mantega chama a atenção ainda para a produção de bens de capital, as máquinas e equipamentos destinadas ao aumento de capacidade das indústrias, "o que significa que o investimento também está se aquecendo". A combinação entre inflação em queda e aceleração da atividade econômica logo no início do ano é, na visão de Mantega, um prenúncio da melhora que se espera para 2006. Normalmente, lembrou, em inícios de ano, a economia é "meio morna". Passado o nervosismo visto logo após o anúncio de seu nome para o comando do ministério, ele avalia que o comportamento dos mercados tem ajudado. "A primeira semana foi muito satisfatória. Os mercados estão totalmente calmos. A Bolsa de Valores subiu vários dias seguidos, o risco país tem caído e reina a total normalidade econômica", avaliou. Ele voltou a descartar qualquer possibilidade de inflexão na política econômica. "A palavra inflexão não existe no meu vocabulário; não podemos mudar uma política que está sendo bem sucedida", disse ele, que apelou até para uma metáfora. "Seria loucura, ninguém rasga nota de R$ 100 neste ministério". (Colaborou Mônica Izaguirre).