Título: Importação de bens em aço preocupa setor
Autor: Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico, 25/04/2006, Empresas, p. B10
A possibilidade de a China se transformar em exportadora líquida de produtos com aço contido como carros, máquinas e equipamentos e autopeças, entre outros, preocupa a indústria siderúrgica brasileira. A importação, pelo Brasil, de bens intensivos no uso de aço reduziria a produção local destes itens e teria reflexos negativos no consumo de aço no mercado interno, disse ontem o presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Luiz André Rico Vicente.
Em janeiro e fevereiro deste ano, cresceram as importações dos setores de máquinas e de autopeças no país na comparação com igual período de 2005, mostrou o executivo. Os dados indicam, segundo ele, que ainda em 2006 as importações de produtos com aço contido podem superar as exportações indiretas (o aço embutido em carros e eletrodomésticos, por exemplo). O fenômeno seria provocado por dois fatores: a valorização do real, que inibe exportações, e a China.
Caso a previsão se confirme, estará se revertendo tendência verificada desde 2000, quando as exportações indiretas de aço do Brasil foram maiores do que as importações, disse. "Caso isso ocorra, o Brasil terá que exportar mais aço diretamente, seja na forma de produtos semi-acabados ou acabados, e menos aço contido em produtos", afirmou Vicente.
Esse movimento na balança do comércio indireto de aço reduziria o consumo aparente de aço no país. Segundo ele, o crescimento no consumo no país vem se sustentando pelas exportações indiretas. O presidente do IBS traçou esse cenário sobre os impactos da China no mercado mundial de aço na 3ª Conferência Latino-Americana sobre Aço e Matérias-Primas, promovida pela Metal Bulletin.
Vicente disse que a China só deve transformar-se em exportadora líquida de produtos siderúrgicos se houver um espasmo que freie o crescimento econômico chinês, que foi de 10,2% no primeiro trimestre de 2006. Disse que a
"A ameaça externa depende da distribuição interna da riqueza gerada na China", disse, pois Ásia, Oriente Médio e Oceania surgem como um mercado novo e crescente. "A festa da siderurgia acontece do outro lado do mundo", comparou. A China elevou sua fatia na produção mundial de 12,7%, em 1994, para 29,8%, em 2005. "Há muitas incertezas por estarmos pendurados nesse único fator."
O dirigente previu, porém, que a longo prazo existe a perspectiva de a siderurgia mundial retomar o equilíbrio entre oferta e demanda com um nível mais normal de utilização da capacidade instalada, que chegou a 95% no ano passado. Prevê-se que em 2010 a capacidade do setor no mundo seja de 1,55 bilhão de toneladas por ano, ante 1,13 bilhão de toneladas em 2004.
A curto prazo Vicente previu que os preços do aço continuarão subindo no mundo. No Brasil, estão estáveis pela própria estagnação do mercado, afirmou. Ontem, o IBS divulgou os dados de janeiro a março - a produção de aço bruto no país somou 7,1 milhões de toneladas com queda de 9,5% em relação a igual período de 2005. As vendas de laminados no mercado interno caíram 6,2%. Os produtos planos laminados tiveram queda de 15,2%; já os de longos cresceram 11% em volume por força da retomada da construção civil.