Título: Desigualdade e corrupção são os maiores riscos na AL
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 06/04/2006, Especial/Fórum Econômico Mundial, p. A7

Para os negócios na America Latina, a desigualdade social e a corrupção aparecem como um risco muito mais preocupante do que a ascensão da economia chinesa representa para a economia global, segundo os participantes do Fórum Econômico Mundial. Convidados a definir quais eram os aspectos mais ameaçadores para os investimentos, empresários, consultores e economistas reunidos em São Paulo enfatizaram o empobrecimento da população do continente e a incapacidade de resolver, ou mesmo amenizar, o problema da iniquidade social como o principal deles. O baixo investimento em educação, embora uma questão considerada banal e obvia, também foi muito comentada. Os debatedores foram chamados a avaliar uma pesquisa (nâo científica ), feita pelo Fórum, sobre os principais riscos para a economia global. A partir dos resultados do estudo, que se dividem em quatro grandes temas, os participantes julgaram o que era mais ou menos pertinente à America Latina. Os temas da pesquisa são os riscos geopolíticos, ambientais, econômicos e sociais. Para a economia global, a ascensão da China é vista como um fator de risco econômico muito alto, dado o peso do pais na economia dos EUA e o impacto dessa relação em eventual ajuste do desequilíbrio econômico americano. Mas para os membros latinos do encontro, embora a China seja relevante, ela é vista mais como uma oportunidade do que como um potencial inimigo, comentou Celso Lafer, ex-embaixador e ex-ministro das Relações Exteriores do governo FHC. "Na nossa mesa, o grande tema foi a inclusão social, como se lida com ela, uma vez que ela gera fragmentação no plano interno e no externo", disse Lafer. A China não é tão preocupante para a região porque é uma economia que cresce e ainda oferece ao Brasil enormes chances de exportação. Para Lafer, de forma generalizada, em todas as mesas que debateram o tema "Gerenciando os riscos globais e regionais", o tema da desigualdade foi o mais premente. Entre as conclusões apresentadas sobre essas questões específicas, foi lembrado pelos membros do Fórum que "só o mercado não resolve esses problemas". Nem mesmo nos Estados Unidos o crescimento econômico e da produtividade foi capaz de impedir o aumento da desigualdade. Para Moises Naim, editor-chefe da revista "Foreign Policy", dos EUA, o Chile é um dos poucos países da região que têm conseguido bons resultados na equação dessas questões sociais crônicas. "Existe um vazio de idéias sobre o que fazer com as questões sociais da América Latina. É uma situação desesperadora." Para Naim, embora a questão da desigualdade tenha ganho espaço no debate público, as políticas adotadas para coibi-la muitas vezes têm gerado mais desigualdade. A corrupção foi outro fator de risco avaliado como fundamental. Mas para David Rothkopf, presidente da Garten Rothkopf, dos EUA, embora seja um mal em si, a corrupção "é mais um sintoma do que a doença propriamente". Ele afirmou que quando se observa a economia que cresce mais rapidamente no mundo, a chinesa, percebe-se que é uma das mais corruptas que há. E se olharmos a maior economia do planeta, os Estados Unidos, vamos encontrar ali formas altamente sofisticadas de corrupção, envolvendo financiamento de campanhas políticas, por exemplo. "Existe uma percepção de que se se conseguir acabar com a corrupção, então tudo poderá ser consertado, e isso não é verdade. Precisamos enxergar o que a corrupção tem a nos dizer a respeito de nossos sistemas, o que ela nos mostra a respeito de nossos líderes, o que nos diz sobre onde estão nossas ineficiências, nossas injustiças, para que então possamos ir lá e consertar." (MCC)