Título: Fusões já somam US$ 13 bi este ano
Autor: Altamiro Silva Júnior e Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 06/04/2006, Finanças, p. C1

O mercado de fusões e aquisições começou 2006 com força total. Apenas no primeiro trimestre, as operações movimentaram cerca de US$ 13 bilhões, segundo a Thomson Financial, quase o mesmo que foi negociado em todo o ano passado (US$ 14 bilhões). Apesar dos escândalos políticos em Brasília e as eleições presidenciais, os bancos que estruturam estas operações estão otimistas e esperam recorde de negócios este ano. "Estamos vendo um movimento bastante forte no setor para 2006", diz Luiz Antonio França, coordenador da subcomissão de fusões e aquisições da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), que acaba de soltar os rankings de 2005 de fusões e de reestruturação societária (ver abaixo). Ricardo Stern, co-presidente do JP Morgan no Brasil, avalia que o mercado de fusões e aquisições deverá voltar a crescer neste ano, impulsionado pelas brasileiras atuando como compradoras de empresas fora do Brasil, favorecidas pela queda do dólar e pelo caixa fortalecido. "A cara do mercado mudou", disse Stern, que tem percebido também interesse de estrangeiros em comprar empresas brasileiras, do investidor estratégico e também dos fundos de private equity. "Há hoje a possibilidade de vender sua participação em uma empresa no mercado de capitais e isso tem trazido interesse renovado dos investidores pelas empresas no Brasil", avalia. Segundo ele, esta tendência começou a se verificar já no ano passado. Como exemplo, cita duas operações nas quais o JP Morgan participou: a compra da argentina Loma Negra pela Camargo Corrêa, por US$ 1 bilhão, e a compra da mineradora peruana Milpo pelo Grupo Votorantim. Em 2005, as operações de fusões e aquisições somaram R$ 20 bilhões, segundo o levantamento da Anbid, obtido com exclusividade pelo Valor. O volume representa uma queda de 80% em relação a 2004, mas a comparação é problemática, porque naquele ano foi fechada a fusão entre a AmBev e a InterBrew, que movimentou sozinha R$ 84 bilhões. Excluindo esta operação, o volume movimentado em 2005 aumenta 42%. Em número de operações, foram 42 em 2005 ante a 43 em 2004. Destas 42 operações, 40% foram resultantes de aquisições aqui por investidores externos. Os recursos lá de fora representaram 42% do volume transacionado no mercado em 2005. O setor de siderurgia e metalurgia foi o que teve mais operações (oito) e respondeu por 21% do total de recursos movimentado. As operações de reestruturações societárias e oferta pública de aquisição (OPAs) somaram R$ 19,1 bilhões, quase quatro vez a mais do que as operações de 2004. Ao todo, foram 13 operações frente a sete em 2004. Apesar da perda de alguns profissionais e do fracasso da associação com o Pactual, o Goldman Sachs foi o banco mais atuante na área, repetindo o desempenho dos dois anos anteriores. O Goldman ficou em primeiro lugar, tanto no ranking por valor das operações, quanto em número de negócios (empatando aqui com o ABN). O banco também liderou todos os quatro rankings de reestruturação societária (por valor e número de operações, anunciadas e fechadas). Em 2006, o Goldman esteve a frente dos principais negócios anunciados, como a venda da American Express para o Bradesco e da Light para um consórcio de investidores, além da reestruturação societária da Embraer. "A tendência é que as operações no Brasil vão se tornar cada vez mais sofisticadas e as transações mais complexas, comparadas às realizadas na Europa e Estados Unidos", diz Antônio Loureiro, que coordena a área junto com Daniel Wainstein e Jairo Pereira. Ao todo, o banco tem 20 executivos (quatro em Nova York, mas dedicados ao Brasil). "As empresas brasileiras estão comprando outras fora do Brasil, mas também dentro do próprio país", avalia Corrado Varoli, que acaba de deixar o Goldman Sachs, mas vinha sendo o responsável pelo banco na América Latina. Os rankings da Anbid mostram que a concorrência é cada vez maior. O Itaú BBA subiu da 16ª posição em 2004 para a 9ª em 2005. Já o JP Morgan tomou o lugar do Goldman e liderou o ranking das operações anunciadas de fusões e aquisições. Segundo Stern, a estratégia do JP tem sido ajudar a formar executivos brasileiros que "se mantêm dentro de casa". Para ele, o JP Morgan tem como estratégia combinar a capacidade de entender seus clientes no país e, ao mesmo tempo, relacioná-los com clientes em outros países da América Latina. A Estater, que nasceu em 2002 com sócios vindos do BBA, já aparece na terceira posição do ranking de fusões. Segundo Pércio Freire, sócio fundador da empresa, a estratégia é se concentrar em poucas (e rentáveis) operações. No ano passado, um dos destaques foi a estruturação da nova estrutura de controle do Grupo Pão de Açúcar, que teve o aumento da participação do francês Casino. A Estater tem quatro sócios e 16 executivos e está trabalhando em quatro operações este ano. O ABN Amro foi outro banco banco que ganhou participação no mercado, conseguindo a primeira colocação no ranking por número de operações, junto com o Goldman. Segundo João Roberto Teixeira, vice-presidente de clientes e empresas do ABN Amro, o mercado continua movimentado, mas o valor das transações foi reduzido, mesmo quando envolve empresas grandes. "Há muitas transações de porte médio, mas que são fundamentais para o cliente", conta. Segundo ele, o ABN busca identificar o problema estratégico de seu cliente e ajudar a resolver esse problema. Desse aconselhamento, pode surgir uma fusão ou aquisição.