Título: Sem Kassab, DEM negocia com Aécio palanques estaduais
Autor: Felício , Cesar
Fonte: Valor Econômico, 10/07/2009, Política, p. A5

Em encontro marcado pela ausência do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, a cúpula dos integrantes do DEM reuniu-se ontem com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), que concorre, junto com o governador paulista José Serra, pela candidatura presidencial tucana no próximo ano. No encontro, o DEM acertou com Aécio apoio a acertos regionais que faz com o PSDB.

Kassab sozinho governa mais eleitores do que o restante dos prefeitos do DEM e é o principal aliado de Serra no partido, a quem usualmente se refere como "líder". O presidente nacional da sigla, deputado Rodrigo Maia (RJ) reagiu com irritação ao ser perguntado sobre a ausência do prefeito. "Ele foi o proponente deste encontro. Não poderia estar presente porque hoje (ontem) é data cívica em São Paulo", afirmou, referindo-se ao feriado da Revolução Constitucionalista.

Desde março, o DEM procura firmar uma posição de neutralidade em relação à disputa tucana. O gesto mais concreto que fez em direção a Serra foi anunciar que aceita abrir mão da posição de vice na chapa, de modo a favorecer um acordo em que o paulista seria o titular e o mineiro o coadjuvante na fórmula que concorreria em 2010.

No encontro, os integrantes do DEM pediram a Aécio apoio para que o PSDB do Distrito Federal aceite a reeleição do governador José Roberto Arruda, o único do partido. "Eles podem se dividir em duas canoas: a nossa e a de Joaquim Roriz", afirmou o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), referindo-se ao ex-governador do PMDB. Em Minas Gerais, o próprio Aécio afirmou que a composição PSDB/DEM será "o núcleo vigoroso da aliança", colocação que enfraquece a hipótese do apoio tucano ao ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB).

"Aécio decidirá a nossa participação. Nós temos nomes para o lugar de vice, de senador e até da governança", afirmou o deputado Carlos Melles (MG), ex-ministro dos Esportes. Se Aécio não for candidato a presidente, o mais provável é que o vice-governador Antonio Junho Anastasia , do PSDB, dispute a reeleição no governo. Se Aécio conseguir a candidatura presidencial, o leque de possibilidades se abre em Minas.

Em São Paulo, a condução do processo sucessório ficará a cargo de Serra. Na hipótese de o governador paulista disputar a reeleição, Melles afirmou que o DEM poderá reivindicar o lugar de vice na chapa. Se Serra sair para a Presidência, a candidatura da aliança ficará entre o ex-governador Geraldo Alckmin, hoje secretário estadual de Desenvolvimento, e Kassab.

No Rio, Aécio deu aval para a articulação em torno da candidatura do deputado Fernando Gabeira (PV), ou, caso ela se mostre inviável, para o lançamento do ex-prefeito do Rio César Maia (DEM). No Espírito Santo, o apoio iria para um tucano, o deputado Luiz Paulo Velloso Lucas. Em Pernambuco, DEM e PSDB podem se unir em torno do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). No Paraná, onde há disputa dentro do PSDB entre as candidaturas do prefeito de Curitiba, Beto Richa, do senador Álvaro Dias e do irmão deste, o também senador Osmar Dias (PDT), a preferência do DEM é por Richa. No Rio Grande do Norte, o DEM pede que os tucanos apoiem a candidatura da senadora Rosalba Ciarlini. Na Bahia, com a intermediação de Serra, o apoio tucano já está certo para o ex-governador Paulo Souto.

Ao final do almoço, Aécio adotou um tom agressivo em relação ao governo federal, afirmando que a aliança com o DEM permitirá uma chapa em torno de uma proposta " de maior qualificação da gestão pública e menos populista". Aécio citou como exemplo de populismo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Há muita propaganda que não corresponde às ações concretas que vão sendo tomadas", disse o governador. Aécio ainda sugeriu que a oposição reivindique espaço editorial nos jornais que aceitaram publicar uma coluna assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Em benefício da democracia, para que não fique um discurso unilateral, poderia ser dado um espaço no dia seguinte para que alguém da oposição, uma liderança importante da oposição, fizesse comentários com relação ao que foi comentado", disse.