Título: O nexo das crises
Autor: del Castillo , Graciana
Fonte: Valor Econômico, 13/07/2009, Opinião, p. A13

Bem menos atenção foi dada ao quase US$ 1 trilhão gasto nas guerras do Afeganistão e do Iraque

Formuladores de políticas, acadêmicos e jornalistas geralmente discutem a crise financeira global e as guerras no Afeganistão e no Iraque como se de alguma forma elas existissem em trilhas paralelas. Na verdade, porém, as crises financeiras e de política exterior atuais estão intimamente ligadas. De fato, a forma a que o mundo recorreu para solucionar a crise financeira oferece uma visão aprofundada interessante sobre como a crise de política externa deve ser abordada.

As crises atuais de política externa vão muito além do Afeganistão e do Iraque. O histórico dos países que passam de conflito a uma paz frágil por meio de intervenção militar ou conciliações negociadas é deplorável: praticamente metade deles recorre ao conflito, provocando mais tragédias humanas e grande número de refugiados. Além disso, os Estados falidos são um incubador para o terrorismo, tráfico de drogas e de pessoas, pirataria e outras atividades ilícitas. Da metade que permanece em paz, a vasta maioria acaba ficando extremamente dependente de ajuda externa - dificilmente um modelo sustentável, no contexto da crise financeira global.

As duas crises geraram enorme sofrimento humano por todo o mundo: milhares de famílias perderam os seus entes queridos em guerras e a crise financeira privou as pessoas dos seus empregos, sustentos, ativos, pensões e sonhos, além do agravamento das condições fiscais e de endividamento da maioria dos países industrializados. Consequentemente, os contribuintes nos países doadores estão exigindo maior transparência, responsabilidade e prestação de contas sobre a forma como o seu dinheiro é gasto tanto internamente como no exterior - e com todo o direito.

Há vínculos notáveis entre as duas crises. A guerra no Iraque contribuiu em parte para a elevação nos preços do petróleo, de US$ 35 o barril em 2003, para US$ 140 em 2007. Esse aumento pressionou corporações e consumidores, e representou um fator de peso para o aumento nos preços dos alimentos no mundo. À medida que os preços subiam e aumentavam as pressões recessivas, muitos donos de casas deixaram de pagar as suas hipotecas. O setor "subprime" nos Estados Unidos foi atingido e a crise financeira se disseminou a partir de lá.

As duas crises exigem formulação de políticas que se distancie da postura de "negócios como sempre". Políticas emergenciais de curto prazo são necessárias para lidar com o desemprego elevado, as retomadas judiciais de residências, falências de empresas e, muitas vezes, com a fome, doenças e uma série de outros males. Políticas emergenciais ou humanitárias podem melhorar o consumo básico no curto prazo, mas também podem desestimular o investimento, aumentar a inflação e reduzir as perspectivas para recuperação econômica no longo prazo. Consequentemente, estas políticas devem ser suspensas o mais cedo possível.

Recuperar-se de ambas as crises exigirá reconstrução econômica eficaz para gerar postos de trabalho. Além de reestruturar o setor financeiro, os programas de recuperação nos EUA, Reino Unido e demais países industrializados mais duramente atingidos pela crise financeira precisam incluir planos de socorro para proprietários de residências e de empresas e geração de empregos por meio de projetos de infraestrutura, tecnologias de energia limpa, e melhorias em serviços de saúde e educação.

No Afeganistão e no Iraque, a reconstrução deve incluir não só a reabilitação de serviços e infraestrutura, mas - o que é mais desafiador - a criação de um arcabouço macroeconômico, jurídico e regulatório para formulação de políticas eficazes. Para evitar a continuação do conflito e a dependência na ajuda, o foco principal da promessa de ajuda internacional deve ser reativar as pequenas empresas e patrocinar companhias iniciantes em vários setores, visando criar economias viáveis que permitam às pessoas ganhar o seu sustento de forma decente e legal.

Apesar da sua semelhança, tem havido um contraste absoluto nas abordagens para solucionar essas duas crises. Se por um lado os programas nas economias industrializadas e emergentes voltados para enfrentar a crise têm sido amplamente discutidos no nível nacional e internacional, por outro, o debate em torno do Afeganistão e o Iraque ficou estreitamente concentrado em temas militares e de segurança, minando a necessidade de promover um esforço de vulto visando uma reconstrução efetiva.

Curiosamente, considerando que a maioria dos americanos está muito ciente do preço de US$ 700 bilhões desembolsado para a reestruturação dos bancos e do pacote de incentivo de US$ 787 bilhões, bem menos atenção foi dada ao quase US$ 1 trilhão gasto nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Muitos supõem que o custo é tão alto porque a reconstrução é onerosa. Mas apenas 6% desta quantia foi destinada à reconstrução e outros programas de ajuda. O resto foi destinado ao Departamento de Defesa dos EUA como um suplemento ao seu orçamento anual, que tem oscilado entre US$ 500 bilhões e US$ 600 bilhões nos anos recentes.

Os líderes mundiais deveriam reconhecer que um investimento mais volumoso em reconstrução, aliado a uma estratégia abrangente e bem equilibrada para garantir transparência e prestação de contas, e políticas públicas apropriadas para empregos legítimos, poderia ter evitado estas imensas despesas militares, tanto no Iraque desde 2006 como no Afeganistão desde a derrubada do governo Taleban, em 2001.

No momento em que os líderes mundiais começam a liderar a discussão global sobre as políticas necessárias para equacionar a crise financeira, eles deveriam iniciar um debate em base ampla sobre o envolvimento futuro da comunidade internacional no Afeganistão, Iraque e outros países devastados por guerras, onde melhores condições de vida são necessárias para conferir à população local uma participação no processo de paz. A comunidade internacional deve reconhecer que as operações militares, de segurança e de manutenção da paz são dispendiosas e não terão êxito na ausência de estratégias novas, inovadoras e integradas para a reconstrução econômica.

Graciana del Castillo é pesquisadora no "Center on Capitalism and Society" (Centro [de estudos] sobre Capitalismo e Sociedade) na Universidade Columbia e autora de "Rebuilding War-Torn States" (Reconstruindo Estados devastados por guerras). © Project Syndicate/Europe´s World, 2009. www.project-syndicate.org