Título: PIB mais forte pode piorar contas externas
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 21/07/2009, Brasil, p. A3
Depois de encolher neste ano, o déficit em conta corrente deve voltar a aumentar a partir do ano que vem, com a retomada mais forte da economia e a valorização do câmbio em relação aos níveis do fim de 2008 e do começo de 2009. Para economistas como o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, o Brasil terá de aceitar resultados piores nas transações de bens, serviços e rendas com o exterior para crescer a um ritmo mais forte que a média da economia global, com expansão robusta dos investimentos.
Alguns analistas heterodoxos, porém, veem essa perspectiva com preocupação, defendendo medidas para manter o câmbio mais desvalorizado e, com isso, evitar uma piora excessiva da conta corrente. Em 2008, o déficit em conta corrente ficou em 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), devendo cair para 1% ou menos neste ano. Para 2010, porém, há quem projete um rombo na casa de 3% do PIB, como o Itaú Unibanco.
"Para acelerar o crescimento, é inevitável aceitar déficits em conta corrente. Isto somente não ocorreria se houvesse uma elevação da poupança doméstica, mas não há indicação de que a atual política econômica esteja levando a esse resultado", diz Pastore.
Nesse cenário, seria positivo para o crescimento uma conta corrente deficitária. Com isso, o país absorve poupança externa, que complementa o baixo nível da doméstica. O Brasil poupa menos de 20% do PIB - no primeiro trimestre, foram apenas 11,1% do PIB -, muito menos que os 50% da China.
O Brasil não poderia, porém, seguir o modelo de países como a China, com elevados superávits em conta corrente, como sugerem economistas heterodoxos? Não, diz Pastore. "O curioso é que ninguém olha para o consumo da China", observa. "O consumo das famílias por lá, que já foi mais de 50% do PIB, atualmente é de 35% do PIB, muito mais baixo do que o consumo em relação ao PIB no Brasil [superior a 60%]." Com um consumo tão baixo, a poupança no país asiático tem que ser bem mais alta. "A China é um país de poupança muito elevada, o que permite a ela manter superávits nas contas correntes e manter taxas muito elevadas de crescimento". Nesse quadro, "se o Brasil quiser seguir o modelo asiático, terá que elevar a poupança total doméstica, o que significa, entre outras coisas, que o governo tem de parar de aumentar os gastos de custeio e de consumo, elevando os investimentos".
Pastore não espera que o país tenha rombos elevados em conta corrente no curto prazo. Em relatório de sua consultoria, a A.C. Pastore & Associados, ele diz que o déficit caiu neste ano porque a demanda doméstica (o consumo das famílias, o consumo do governo e o investimento) teve uma forte queda, superior à registrada pelo PIB. A crise global fez o investimento mergulhar, afetando também o consumo das famílias, nota ele.
Com a queda dos juros reais, a elevação gradual do crédito ao consumo e os estímulos fiscais, o consumo começou a se recuperar, embora lentamente. Pastore diz que o investimento terá uma retomada ainda mais vagarosa, porque os lucros das empresas caíram muito, a capacidade ociosa na indústria segue elevada e o recuo das exportações inibe o apetite por inversões dos exportadores.
"Ao longo dos próximos trimestres, à medida que a capacidade ociosa for se reduzindo e persistirem os estímulos das políticas contracíclicas, os investimentos em capital fixo tenderão a se elevar, aumentando a demanda doméstica a uma velocidade acima da do PIB", escreve ele. Quando isso ocorrer, os déficits em conta corrente voltarão a crescer, mas esse não é um quadro que deverá ocorrer ao longo dos próximos meses, e sim mais adiante, ao longo de 2010".
O economista Darwin Dib, do Itaú Unibanco, tem previsões nessa linha. Ele acredita que o déficit em conta corrente vai subir de 1% do PIB neste ano para 2,9% do PIB em 2010, num cenário em que a economia brasileira passa de uma contração de 1% neste ano para um crescimento de 4,1% no ano que vem. Dib vê ainda quedas adicionais do dólar, estimando uma cotação de R$ 1,80 no fim de 2009 e de R$ 1,70 no fim de 2010. Com crescimento mais elevado e dólar barato, as importações e as remessas de lucros e dividendos tendem a crescer com mais força.
Dib não se mostra preocupado com a deterioração que prevê para a conta corrente nos próximos anos. Segundo ele, o país deve receber um volume expressivo de investimentos estrangeiros diretos - US$ 30 bilhões em 2009 e US$ 43 bilhões em 2010 -, uma fonte de financiamento mais estável, além de um fluxo significativo de recursos para renda fixa e ações. A consolidação da estabilidade macroeconômica nos últimos 15 anos e a perspectiva de crescimento mais forte do mercado interno tornam o Brasil um país atraente para o capital externo, diz o economista.
Dib nota que o aumento do déficit em conta corrente ocorrerá num quadro de ajustamento da economia global. Os EUA pouparão mais e consumirão menos do que antes da crise, o que implica rombos menores nas contas externas. Já os países emergentes crescerão mais e consumirão mais, atingindo resultados piores em conta corrente. Para completar, Dib diz que o câmbio flutuante serve como um mecanismo de ajuste, caso os fluxos de recursos para o Brasil diminuam. Foi o que ocorreu depois do agravamento da crise global, em setembro de 2008, que levou a uma desvalorização do câmbio e, com isso, ajudou a encolher o déficit externo.
Pastore diz que os limites do déficit são dados pelo "ingresso de capitais". "Podemos ter investimentos diretos, ou ingressos de portfólio [como o dinheiro para a renda fixa], de prazos mais longos ou mais curtos. O ideal é atrair investimentos diretos, mas mesmo outras formas de ingressos também financiam os déficits, e permitem ao país crescer mais, porque possibilitam taxas de investimento maiores."
Ele afirma ainda que "taxas de investimento maiores ocorrem ao lado de déficits em conta corrente", mostrando a evolução trimestral do déficit em conta corrente e do investimento desde 1995, a preços de 2000. "Os períodos de superávits em conta corrente estão associados aos períodos de menores investimentos em proporção ao PIB", diz ele, para quem parte dos déficits pode financiar alguma expansão de consumo, mas o efeito predominante é o financiamento do investimento.