Título: Todos os caminhos levam à China
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 27/07/2009, Opinião, p. A11

Somente mediante colaboração entre China e EUA é que esses países poderão tirar a economia mundial de sua atual depressão

Agora que definharam os "brotos verdes" da recuperação, o debate sobre o estímulo fiscal voltou com força redobrada. Nos EUA, quem defende outro pacote de estímulo observa ter sido um anseio irrealista acreditar que um pacote de US$ 787 bilhões poderia compensar uma queda de US$ 3 trilhões em gastos privados. Mas o desemprego cresceu ainda mais e mais rapidamente do que esperado. Isso, associado à queda continuada nos preço das moradias, torna compreensível que os gastos dos consumidores continuem deprimidos.

Os bancos, tendo sido recapitalizados apenas na medida necessária para mantê-los à tona, continuam com balanços patrimoniais frágeis. Sua resultante relutância em conceder empréstimos limita os investimentos. Por outro lado, os governos estaduais americanos, vendo quedas em suas receitas decorrentes de rendas tributáveis mais baixas no ano passado, estão cortando gastos como loucos. Se havia justificativas para um estímulo adicional em fevereiro passado, os argumentos agora são ainda mais fortes.

Mas os argumentos contra um estímulo adicional são também ponderáveis. O déficit federal americano é de alarmantes 12% do Produto Interno Bruto (PIB) e as projeções já indicam que a dívida pública, como fração da renda nacional, deverá dobrar, para 80% do PIB. A ideia de que os Estados Unidos poderão livrar-se, gradual e autonomamente, de sua carga de endividamento, como fizeram a Finlândia e a Suécia após suas crises financeiras na década de 90, parece irrealista.

Em vista disso tudo, mais gastos deficitários apenas alimentarão temores de maiores impostos e inflação futuras. Isso incentivará o ressurgimento de desequilíbrios em nível mundial e não tranquilizará consumidores ou investidores.

É possível discutir o quadro econômico dos dois pontos de vista, mas do ângulo político tudo aponta numa direção. O Congresso americano não demonstra apetite por outro pacote de estímulo. Os congressistas já sofreram intensas críticas por não colocarem ordem na casa fiscal do país. A lentidão com que o primeiro estímulo foi implementado e o fato de que levará ainda mais tempo para que seus plenos efeitos venham a ser sentidos são mais combustível para o discurso de analistas e especialistas.

O desapontamento diante dos efeitos do Programa de Socorro a Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês) já liquidou o apoio popular - e do Congresso - a mais dinheiro público para recapitalizar os bancos. Assim, mesmo aqueles que julguem convincente a lógica econômica de argumentos em favor de ativismo fiscal devem reconhecer que as condições políticas não são favoráveis. Um segundo estímulo é simplesmente carta fora do baralho.

Para que haja maior demanda agregada, ela poderá vir de um único lugar. Esse lugar não é a Europa ou o Japão, onde o endividamento é ainda mais elevado do que nos EUA - e as precondições demográficas para reduzi-lo são ainda menos favoráveis. Ao contrário, a solução está em mercados emergentes como a China.

O problema é que a China já fez muita coisa para estimular a demanda interna, tanto mediante gastos governamentais como instruindo seus bancos a conceder empréstimos. Em consequência, seu mercado acionário está em efervescência e os chineses vivem um alarmante boom no mercado imobiliário. Em maio, os preços dos imóveis subiram 18% em relação a doze meses antes. Compreensivelmente, as autoridades chinesas estão preocupadas com problemas característicos de bolhas.

A maneira óbvia de equacionar a quadratura desse círculo seria gastar mais em importações. A China pode comprar mais maquinário industrial, equipamentos de transportes e material para a produção de aço, que estão entre suas principais importações provenientes dos EUA. Orientar os gastos no sentido da importação de bens de capital evitaria superaquecer os próprios mercados chineses, incrementaria a capacidade produtiva da economia (e, portanto, sua possibilidade futura de crescer) e fortaleceria a demanda por produtos americanos, europeus e japoneses exatamente no momento em que esse estímulo é mais necessário.

Essa estratégia não é imune a riscos. Permitir que o yuan valorize, como uma maneira de estimular importações, poderá também desestimular as exportações, tradicional motor do crescimento chinês. E baixar as barreiras aduaneiras a importações poderá redirecionar mais gastos para a aquisição de produtos estrangeiros do que pretendam as autoridades. Mas vale a pena assumir esses riscos, se a China deseja realmente um papel de liderança mundial.

A pergunta é: o que a China obterá em contrapartida. E a resposta nos leva de volta exatamente ao ponto de onde partimos, ou seja, à política fiscal americana. A China está preocupada com uma eventual desvalorização de seu US$ 1 trilhão investido em títulos do Tesouro dos EUA. Os chineses querem ter certeza de que os EUA honrarão seu endividamento. Por isso, a China quer ver um programa convincente de equilíbrio orçamentário americano após o fim da recessão.

E, apesar do que diz, o governo Obama ainda não ofereceu um roteiro convincente de consolidação fiscal. Se o fizesse, tranquilizaria os contribuintes americanos preocupados com os atuais déficits. Igualmente importante, também tranquilizaria as autoridades governamentais chinesas.

Vivemos em um mundo multipolar onde tanto os EUA como a China não são suficientemente grandes para exercer individualmente uma liderança econômica mundial. Para a China, liderança significa assumir riscos adicionais. Mas para que isso seja tolerável, os EUA precisam eliminar os riscos existentes que preocupam a China. Somente mediante colaboração os dois países poderão tirar a economia mundial de sua atual depressão.

Barry Eichengreen é professor de economia na Universidade da Califórnia, Berkeley. © Project Syndicate/Europe´s World, 2009.