Título: O risco do crescimento com poupança externa :: João Basilio Pereima Neto e Fábio Dória Scatolin
Autor: Basilio Pereima Neto , João
Fonte: Valor Econômico, 03/08/2009, Opinião, p. A10
O risco do crescimento com poupança externa
Crescimento de longo prazo depende mais da mudança tecnológica e da produtividade do que da existência de poupança
O Brasil historicamente tem adotado a estratégia de financiar o crescimento econômico com poupança externa. No passado recorreu a empréstimos e a investimento estrangeiro direto (IED). Mais recentemente recorreu a fluxos de capital financeiro especulativo e IED. Como resultado, colheu um pífio crescimento nos últimos 20 anos e desnacionalizou cerca de 25% do PIB. O regime monetário mundial pós-Bretton Woods, a atual crise e o corrente aumento de risco e incerteza nos fluxos de capitais têm gerado um intenso debate sobre a conveniência e sustentabilidade desta estratégia de desenvolvimento no futuro.
Os governos de Getúlio Vargas (1950-1954), Juscelino Kubitschek (1956-1960) e o II Programa Nacional de Desenvolvimento (1975-1979) são um marco divisor na história econômica do país pela intensa mudança estrutural que impuseram à economia e pela afirmação de um projeto nacional. Nestes três episódios o país optou por financiar o crescimento com poupança externa e definiu um padrão de relacionamento e dependência à comunidade financeira internacional que permanece até hoje. Nos três ciclos, o modelo combinou aumento da demanda doméstica e importações, câmbio valorizado, investimento industrial público e privado e utilização da poupança externa como fonte de financiamento dos déficits em transações correntes. Mas a principal fonte de crescimento não foi propriamente a poupança, e sim o aumento de produtividade no período. O Brasil viveu até os anos 1970 o mesmo processo que Robert Solow observou nos EUA, onde dois terços do crescimento até os anos 1950 seriam explicados pelo progresso tecnológico.
Embora este modelo tenha funcionado relativamente bem nos primeiros 30 anos, gerando um crescimento médio de 7% ao ano entre 1950-80, ele foi incapaz de garantir o crescimento sustentado após 1980 devido às contradições internas e mudanças no sistema financeiro mundial após 1971. Mesmo durante o período de industrialização, várias vezes o crescimento foi abortado pela necessidade de se ajustar o balanço de pagamento, ao preço de crises cambiais periódicas.
O problema do crescimento com poupança externa é que o modelo exige, a longo prazo, um câmbio valorizado que barateie a importação de bens de capital e ao mesmo tempo evite o aumento do passivo externo em moeda nacional. Um efeito colateral do câmbio valorizado é desviar a demanda interna para fora do país, o que acaba neutralizando uma parte do crescimento, ao mesmo tempo em que inviabiliza exportações e agrava a situação do balanço de pagamentos. Incapaz de sustentar os déficits por muito tempo, o país incorre inevitavelmente em crises externas, com maxidesvalorizações e inflação cambial. Para evitar tais especulações contra a moeda nacional, as autoridades locais veem-se forçadas a aumentar a taxa de juro atraindo capital especulativo, na tentativa, às vezes desesperada, de equilibrar momentaneamente o balanço de pagamentos. A política monetária restritiva adiciona novo efeito colateral que bloqueia o crescimento econômico. As contradições internas introduzem volatilidade cambial, erraticidade e problemas irresolvíveis no processo de crescimento.
Além disto, a tese da necessidade de poupança externa não leva em conta uma propriedade estrutural das modernas economias monetárias: o sistema bancário e o crédito criam endogenamente a poupança necessária para financiar os investimentos. Assim, o crescimento de longo prazo depende mais da mudança tecnológica e da produtividade do que da existência de poupança.
Infelizmente a permanência e a racionalidade da estratégia de crescimento com poupança externa sobrevivem no Brasil até os dias de hoje. Por quê? A escolha entre modelos de financiamento é também um problema de economia política que revela, de um lado, o entendimento das coalizões de forças e interesses que dão sustentação a cada governo, e de outro lado as oportunidades de inserção mundial que as dotações de fatores e a estratégia perseguida possibilitam na história dos países. No caso brasileiro, é visível o predomínio do interesse e da razão financeira em recorrer à poupança externa sobre a razão tecnológica e nacional.
Além disso, o recurso à poupança externa é anacrônico quando se olha para o sistema financeiro mundial. Com o fim do sistema regulado de Bretton Woods em 1971 e a substituição de um regime de câmbio fixo por flutuante, as finanças se descolaram do lado real da economia arbitrando com diferenciais de juros e flutuações cambiais. Ao mesmo tempo em que removia barreiras à mobilidade do capital, a desregulação mundial propiciou uma explosão de novos esquemas de valorização do capital financeiro. O resultado foi que os sismógrafos registraram tremores mais frequentes e aumento da instabilidade financeira em praticamente todos os países. O economista Barry Eichengreen encontrou evidências de mais de 120 crises cambiais entre a década de 1970 e a primeira década deste milênio. Os países mais expostos foram exatamente os que adotaram modelos de crescimento com poupança externa combinando câmbio valorizado com déficits em transações correntes, como o Brasil.
No que se refere à atual crise, o cerne dela está no que Ben Bernanke denominou de excesso de poupança mundial. É possível que a crise econômica ponha fim à era dos desequilíbrios nos balanços de pagamentos. Uma nova fase do capitalismo mundial poderá se seguir, na forma de uma batalha pelos lucros. O recrudescimento do comércio internacional estimulará os IED no exterior como forma de contornar barreiras.
Os países superavitários irão reciclar suas reservas internacionais, hoje maciçamente aplicadas no mercado financeiro americano e inglês em crise, financiando investimentos e aquisições no exterior com o objetivo de dominar as fontes de lucros e garantir remessas eternas de lucros. O IED no exterior é mais seguro que o comércio e estes países já estão indo às compras. Das 50 maiores empresas de países emergentes internacionais em 2005, apenas três eram brasileiras. Na contramão do mundo, os países que procurarem atrair poupança externa, como o Brasil, se tornarão a presa fácil.
É preocupante que o governo Lula não atente para isso. Também é preocupante que o PSDB e os postulantes à Presidência ainda raciocinem com o pensamento macroeconômico do século passado, viciados em poupança externa. Definitivamente, não dá para pensar o Século XXI com as mentes do Século XX.
João Basilio Pereima Neto e Fábio Dória Scatolin são professores de Economia da Universidade Federal do Paraná. E-mails: joaobasilio@ufpr.br e scatolin@ufpr.br
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