Título: Desgastado no cargo, ministro da Fazenda tenta pacificar Receita
Autor: Costa , Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 28/08/2009, Política, p. A10

O ministro Guido Mantega (Fazenda) se desgastou politicamente, mas não será demitido do cargo. Mantega, na realidade, participa das tentativas de pacificação da Secretaria da Receita Federal, rebelada desde a demissão da secretária Lina Vieira. A ideia é negociar uma composição dos grupos que disputam o poder na Receita em torno do novo secretário, Otacílio Cartaxo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou aborrecido com Mantega por entender que ele foi inábil na execução das mudanças no comando da Receita Federal, ao trocar Jorge Rachid (egresso do grupo de Everardo Maciel, secretário nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso), por Lina Vieira, integrante do grupo da Receita ligada ao PT e aos sindicalistas. Em um primeiro momento, Lula deu o sinal verde para a troca na Receita, mas, depois, avaliou que Mantega não soube operar a mudança.

A confirmação de Cartaxo, no cargo, é uma sinalização do Palácio do Planalto e da Fazenda ao grupo de Rachid, uma vez que o atual secretário é ligado à Lina Vieira. Ou seja, ele fica, mas outros dirigentes saem para dar lugar a integrantes do grupo que foi preterido por Mantega.

Ao assumir o posto que fora de Antonio Palocci, o ministro Guido Mantega resolveu deixar para fazer as mudanças de pessoal da Receita Federal por último. Segundo auxiliares do presidente Lula, justamente por se tratar de uma área delicada, responsável pela sustentação financeira do governo e depositária de informações sensíveis dos contribuintes brasileiros.

Mantega achava que a Receita era comandada pelo mesmo grupo político havia 14 anos, sendo oito do ex-secretário Everardo Maciel, no mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, e os quase seis de Rachid. Mas Lula não tinha o que reclamar de Rachid (nomeado para o posto por Palocci). E agora acha que seu governo tem um problema, numa área sensível, onde antes não havia confusão.

"Por que nós fomos mexer numa área que não tinha problemas e agora tem?", desabafou Lula, em resumo feito por um assessor palaciano.

Mantega entra em baixa no governo no momento em que sobe a estrela de Antônio Palocci, liberado ontem pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da acusação de ter mandado quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. O que não significa que Palocci voltará ao Ministério da Fazenda (mas pode, sim, ocupar outro posto no governo e integrar o núcleo decisório), mas que ele se torna uma sombra ainda mais incômoda para Mantega, que não assimila o fato de o ex-ministro ter voltado a influir nos bastidores do governo.

Foi por volta de julho de 2008 que Mantega avaliou que chegara a hora certa para fazer a mudança: o país crescia e batia recordes de arrecadação. Mas em vez de tentar fazer uma troca pactuada entre os grupos, impôs o nome de Lina "na marra".

Os problemas políticos não tardaram a surgir. Dependendo da conjuntura, os dois grupos usavam os mesmos argumentos um contra o outro: a queda da arrecadação se devia à crise financeira mundial e as desonerações patrocinadas pelo governo, defendia-se o grupo de Lina quando a receita começou a despencar; o problema era de gestão - argumentava o outro grupo -, pois o Fisco fora aparelhado pelo PT.

O governo, segundo assessores do presidente Lula, sabe que boa parte na queda dos impostos tem relação com a crise econômica e as desonerações. Mas o presidente acha também que a divisão interna na Receita, com a briga entre os diversos grupos, pode ter levado os auditores a fazerem "corpo mole". Com a demissão de Lina, a bomba estourou e a guerra dos diversos grupos internos veio à tona.

Mas o que desestabilizou Lina foi a notícia de que a Petrobras supostamente usara de artifícios impróprios para pagar menos imposto. Os dois grupos que disputam o poder na Receita, em seguida, avalizaram os métodos utilizados pela estatal. Mas o vazamento da notícia já criara o estrago: deu força à oposição para instalar a CPI da Petrobras. (Colaborou Paulo de Tarso Lyra)