Título: Unasul espera garantias da Colômbia sobre uso de bases
Autor: Leo, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 28/08/2009, Internacional, p. A13
Em clima "moderadamente otimista", segundo definiu para o Valor o assessor da Presidência, Marco Aurélio Garcia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentará hoje obter da Colômbia um compromisso formal de que o acordo firmado entre o país andino e os Estados Unidos não admitirá ações militares fora do território colombiano. Lula tenta apaziguar os ânimos exaltados com o acordo, e tomará café da manhã com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que tem ameaçado criticar agressivamente a Colômbia, na reunião dos presidentes da União das Nações Sul-americanas (Unasul).
Lula levará à reunião o argumento de que a Unasul é um patrimônio importante que permite resolver problemas da América do Sul sem envolvimentos de países de fora da região, com vantagens para todos, segundo disse Garcia ao Valor . "O objetivo é chamar atenção para o fato de que nós queremos resolver os problemas de segurança coletiva no âmbito da Unasul", disse Garcia. "Não queremos suar com o calor alheio, trazer para cá problemas dos outros."
A reunião da Unasul acontece hoje, em Bariloche, e foi antecedida por esforços diplomáticos do governo brasileiro. Lula conversou ontem, por telefone, com Chávez. Antes, enviou à Colômbia e ao Equador o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o próprio Marco Aurélio Garcia. A conversa com Chávez deu a Lula a impressão de que o venezuelano não será tão hostil à Colômbia quanto tem sido em declarações públicas, nos últimos dias. Mas ninguém no Palácio do Planalto se arrisca a prever o comportamento do impulsivo Chávez.
"A Unasul é um valor muito forte para o continente, não seria bom que uma gripe viesse a abatê-la", comentou Garcia, minimizando os efeitos da retórica de Chávez e lembrando que houve crises mais graves entre Venezuela e Colômbia, já superadas. Agentes colombianos já sequestraram um dirigente das Farc na capital venezuelana, Caracas, e, no último atrito entre Colômbia e Equador, Chávez ameaçou enviar tropas à fronteira.
Garcia e Jobim voltaram ao Brasil convencidos de que há um clima de distensão entre Colômbia e Equador. Os dois países tem mantido cooperação no patrulhamento de fronteira, apesar de terem rompido relações diplomáticas, desde que tropas colombianas invadiram território equatoriano para atacar um acampamento dos guerrilheiros da Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em março de 2008. Há uma semana, os ministérios de Relações Exteriores de ambos iniciaram conversas para reatar relações.
Jobim disse ao Valor que os colombianos lhe garantiram que não haverá movimentação de soldados americanos no território da Colômbia e que recebeu das autoridades locais a informação de que o presidente do país, Álvaro Uribe, aceitaria formalizar as garantias de que sob nenhuma hipótese efetivos militares vinculados ao acordo com os Estados Unidos realizariam operações para além das fronteiras colombianas. Jobim mostrou-se desinformado, porém, ao falar sobre a exigência de Uribe sobre a inclusão do acordo militar entre Brasil e França, na pauta da reunião de hoje. "Não houve pedido", disse ele, dizendo, porém, não ver problema em detalhar o acordo em Bariloche.
Lula levará detalhes do acordo com a França, que prevê compra de helicópteros e construção de submarinos, inclusive um movido a energia nuclear. E o argumento, já manifestado pelo chanceler Celso Amorim, de que não se comparam acordos de cooperação e comércio, como o realizado entre Brasil e França, ou manobras militares temporárias, como as patrocinadas por Venezuela e Rússia, com a manutenção em território sul-americano, em caráter permanente, de tropas e equipamento militar de países alheios à região.
"Hoje não nos preocupamos porque temos ótimo relacionamento com o governo Uribe e o governo Barack Obama, mas, e amanhã? " pergunta Garcia. "Os governos vão e as tropas ficam; o que acontecerá se, numa perseguição, atravessarem a fronteira?"