Título: PMDB ganha espaço na coordenação política
Autor: Costa , Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 07/08/2009, Política, p. A7

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu criar uma terceira instância de coordenação política do governo, especialmente para atender o PMDB. Lula acredita que a crise do Senado arrefeceu e permitirá a reacomodação das forças políticas. Ele não tem dúvidas de que o que está em jogo são as alianças eleitorais para a sucessão de 2010.

Desde que se integrou definitivamente ao governo, o PMDB reivindicava um assento na coordenação de governo, o que Lula não achava adequado porque confundia as esferas de poder. A coordenação de governo é onde se define a ação administrativa do governo, diz um ministro da intimidade do presidente. Mas Lula também achava pouco para um partido do tamanho do PMDB o Conselho Político, que reúne presidentes de mais de uma dezena de siglas de apoio ao governo, uma autêntica assembleia.

A outra instância de coordenação política é o ministério chefiado pelo deputado José Múcio (Relações Institucionais), que cuida mais da parte referente às emendas parlamentares. A nova instância seria menor, integrada provavelmente por ministros das siglas e majoritariamente por PT e PMDB, os dois principais partidos aliados da base de sustentação. Lula já discutiu o assunto com Michel Temer, presidente da Câmara e do PMDB.

O presidente acompanhou atentamente todo o desenrolar da crise no Senado e chegou a pelo menos três conclusões ao que se pode chamar de fim do primeiro ato, com as vitórias do senador José Sarney e seus aliados, pois ninguém duvida de que a crise ficará pairando sobre o Congresso até as eleições:

1 - O PMDB se unificou mais do que em qualquer outra época, depois do regime militar, quando era o partido que hasteava a bandeira da redemocratização. Os dois grupos - o do Senado e o da Câmara - estão muito mais próximos. Sarney ficou particularmente sensibilizado com a nota em que o partido sugeria que abandonassem a sigla os dissidentes que se posicionaram favoravelmente ao afastamento de Sarney da presidência do Senado. Ele telefonou e agradeceu a Michel Temer.

2 - A crise consolidou a aproximação do PMDB com o PT, apesar da reação da bancada do Senado, que jogou ao lado da oposição, durante a crise, o que se atribui a motivos eleitorais, principalmente do líder Aloizio Mercadante, que terá de enfrentar uma difícil campanha pela reeleição em São Paulo, em 2010.

3 - Ficou mais fácil o caminho para uma coligação eleitoral em 2010, independentemente das disputas entre os dois partidos - PT e PMDB - nos Estados. Uma coligação formal, o que daria o tempo de TV pemedebista para a candidata do presidente à sucessão, Dilma Rousseff, a ministra da Casa Civil. Prova disso é que até o deputado Michel Temer, sempre identificado com o grupo do partido mais ligado ao governador de São Paulo, José Serra, passou a trabalhar de forma aberta pela aliança entre os partidos.

A crise do Senado, segundo o entendimento de Lula, seria a prova inequívoca de que a oposição "usa a tática da muvuca", na expressão de um dos auxiliares mais próximos do presidente. Isso porque, nessa avaliação, tem dificuldades para discutir assuntos como o pré-sal. "Como questionar por que o governo não é mais generoso com as empresas estrangeiras?", indagou um assessor.

Mas a oposição - na visão de Lula - conseguiu em parte seus objetivos, pois rachou a base do governo, quando o PSDB se aliou ao PT e ao DEM na defesa do afastamento de Sarney da presidência do Senado, deixando do outro lado o PMDB e outros partidos menores, como o PTB de Fernando Collor de Mello (na realidade o PT estava também rachado, mas o fato é que oficialmente a bancada jogou com a oposição). "Não temos o direito de ser ingênuos. O que está em jogo aqui são as alianças políticas de 2010", argumentou Lula, à certa altura.

O enredo desenvolvido no Palácio do Planalto é que a crise do Senado não é um problema de Sarney. Por razões eleitorais é que ela virou a crise de Sarney, pois problemas como nepotismo existem e sempre existiram no Senado. Não há, nesse enredo, como o "Catão do Cerrado", referência ao senador tucano de Goiás Marconi Perillo, primeiro vice-presidente do Senado, de repente apresentar-se como um grande defensor da ética. Em termos menos emocionais: o problema é estrutural.

Por outro lado, afirma-se nos gabinetes próximos ao de Lula, o Senado deve uma satisfação ao país e o presidente está informado e convencido de que é isso o que José Sarney vai fazer a partir do estudo feito pela Fundação Getulio Vargas, com a colaboração de funcionários da Casa.

Até a sexta-feira da semana passada havia dúvidas, entre integrantes do governo, sobre a disposição de Sarney de enfrentar a oposição, na volta do recesso. Integrantes de sua família, de fato, chegaram a avaliar que melhor seria o afastamento para preservar o patriarca e o próprio clã, cada vez mais exposto no noticiário (esta foi uma das queixas de Sarney no discurso em que anunciou que não renunciaria).

Nem todos os familiares de Sarney concordaram com a tese. A filha Roseana, governadora do Maranhão, era uma das que vacilava - queria preservar o pai. É conhecida a forte ligação que une Sarney e Roseana. Mas a matriarca Marli sempre foi radicalmente contra a renúncia. Na sexta-feira, Sarney fez chegar ao Planalto a notícia de que não renunciaria, que não encerraria dessa maneira uma carreira política de mais de 50 anos.

Na segunda-feira, antes de fazer o discurso no Senado, Sarney falou com Lula ao telefone. Foi novamente incisivo: "Não renuncio, não saio, tenho a consciência tranquila", disse o senador ao presidente, de acordo com o relato de Lula a um de seus auxiliares. Em todos os momentos, Lula empenhou seu apoio pessoal e articulou em favor do ex-presidente da República, apesar das diversas tentativas de setores palacianos - e até da oposição - de convencer políticos e jornalistas de que Lula abandonara Sarney.

Essa crise revelou com clareza que o coordenador político de fato do governo é o presidente Lula. Nos dois primeiros anos e meio de mandato, ele demonstrava pouca afeição à política. Depois da saída dos ministros José Dirceu (Casa Civil) e Antonio Palocci (Fazenda), no entanto, ele tomou gosto pelo assunto.

Apesar de agora estar decidido a criar uma terceira instância de coordenação política, é esse sindicalista que um dia chegou a dizer que havia 300 picaretas no Congresso quem está na condução político-partidária do governo. Ele escolheu sozinho a candidata do PT à sucessão de 2010, a ministra Dilma Rousseff, segurou Sarney, como antes segurara o mandato de Renan Calheiros, e pode vir a tornar o deputado Ciro Gomes candidato em São Paulo.