Título: Julgamento no STF define futuro eleitoral de Palocci
Autor: Lyra , Paulo de Tarso
Fonte: Valor Econômico, 27/08/2009, Política, p. A7

O deputado federal Antonio Palocci (PT-SP) espera a absolvição hoje no Supremo Tribunal Federal (STF) para apresentar seu nome ao governo de São Paulo. Diante da possibilidade concreta de o STF não aceitar as denúncias contra ele no processo que investiga a quebra de sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa, Palocci já manifestou a vários interlocutores o desejo de lançar-se candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes. "Mas é preciso também examinar a viabilidade eleitoral dele. Ter sido ex-ministro da Fazenda não assegura popularidade junto ao eleitorado", declarou um funcionário da Presidência da República.

Apesar da cautela, ninguém no governo acredita que, caso seja absolvido, Palocci ainda tenha que carregar a acusação de ter pedido a quebra do sigilo de Francenildo. Em 2005, o caseiro denunciou a participação de Palocci em festas e reuniões em uma mansão do Lago Sul, em Brasília, conhecida como "República de Ribeirão Preto". Nela, seriam distribuídas propinas desviadas de contratos irregulares daquela prefeitura. Por mais de uma vez, Lula disse que "este fato é facilmente superável". Para um petista que acompanhou de perto a queda de Palocci do Ministério da Fazenda, sempre haverá quem queira tentar resgatar esta história. "Mas ela não é suficiente, por si só, para prejudicar uma candidatura".

Um ministro próximo de Lula disse ao Valor que o presidente será sensível a eventuais pedidos feitos pelo seu ex-ministro da Fazenda. Lula nunca escondeu a afeição e, acima de tudo, o respeito que sente por Palocci, um dos artífices da "Carta ao Povo Brasileiro". Em 2002, foi este documento político que atenuou o pânico dos mercados diante da iminente vitória do PT nas eleições presidenciais. "Se o STF de fato decidir pela absolvição do Palocci, ele tem liberdade para decidir seus próximos passos", atestou o ministro.

Fontes próximas ao ex-ministro da Fazenda, contudo, assinalam que "Palocci tem autonomia, mas sempre vai subordinar seus interesses aos planos políticos de Lula".

Este raio de ação, por enquanto, tem um limite definido, que é a pré-candidatura à Presidência da República em substituição à chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff. Um ministro do Palácio do Planalto avalia em "zero" a possibilidade de Palocci ser candidato a presidente em 2010. "A Dilma está bem, as pesquisas apresentam sua candidatura com intenções de voto que variam entre 16% e 21%. Ela é a candidata do PT e do presidente Lula", resumiu.

A cúpula do Executivo trata essa possibilidade com extrema cautela pois dizer que Palocci pode ser uma opção à candidatura Dilma seria um claro sinal de enfraquecimento da chefe da Casa Civil. "Mas a possibilidade existe. Se ela parar de crescer nas pesquisas ou a doença retornar, nada é impossível", admitiu uma fonte do PT.

Se optar por concorrer ao governo de São Paulo, em vez de tentar uma garantida reeleição a deputado federal, Palocci altera substancialmente o jogo sucessório no principal Estado do país. Lula já havia imaginado esta hipótese antes, mas temia uma demora no julgamento do STF. Para o presidente, Palocci teria o perfil ideal pelo seu livre trânsito junto ao empresariado, nascido dos debates ainda durante a campanha de 2002, reforçado no governo de transição e consolidado nos dois anos e meio de gestão à frente do Ministério da Fazenda.

Diante das incertezas jurídicas, Lula começou a considerar a candidatura de Ciro Gomes (PSB-CE) ao governo paulista. "Claro que a saída de Ciro da disputa presidencial reforça a tese de uma eleição plebiscitária em 2010. Mas no encontro com o presidente, tanto Ciro quanto o PSB manifestaram o desejo de apresentar o parlamentar como candidato da legenda à Presidência", disse um assessor do presidente.

A preocupação de Lula era a ausência de nomes fortes em São Paulo para derrotar os 16 anos de gestão do PSDB. Palocci pode ser esta alternativa, mas o seu destino permanece incerto. Ele pode continuar sendo um discreto conselheiro presidencial e iniciar a consolidação de seu nome ao governo estadual. Ou virar ministro, com duas opções: substituir Dilma na Casa Civil, liberando a ministra para a campanha presidencial; ou suceder José Múcio Monteiro - que vai assumir uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU) - na coordenação política.