Título: Cadernetas têm o melhor mês de julho da história
Autor: Pavini , Angelo
Fonte: Valor Econômico, 07/08/2009, EU & Investimentos, p. D2

As cadernetas de poupança registraram em julho a terceira melhor captação mensal desde 1994, com R$ 6,672 bilhões, o dobro do valor acumulado nos seis primeiros meses deste ano. Excluindo os meses de dezembro, quando sazonalmente a caderneta recebe mais depósitos por conta do 13º salário, julho foi o melhor mês em 15 anos, segundo os dados do Banco Central e do Valor Data. Os recordes mensais anteriores da poupança foram em dezembro de 2007, com R$ 9,135 bilhões, e dezembro de 2006, com R$ 7,432 bilhões.

O interesse aparece também na abertura de novas contas. Na Caixa Econômica Federal, líder no segmento de poupança, o número de novas cadernetas cresceu 17,51% em julho sobre o mesmo mês do ano passado, de 299.510 para 351.944.

No acumulado do ano, a poupança tem captação líquida de R$ 9,119 bilhões, volume 36% superior aos R$ 6,691 bilhões registrados no mesmo período de 2008. Só esse resultado já garantiria para este ano o quarto melhor desempenho para a poupança de 1994 para cá, perdendo apenas para 2008, 2007, 2002 e 1997. Enquanto isso, os CDBs captaram R$ 20,7 bilhões de janeiro a julho, e os fundos DI perderam R$ 7,8 bilhões. Em 12 meses, a vantagem da poupança sobre os fundos DI é maior, com captação de R$ 20 bilhões, para resgates de R$ 15,724 bilhões nos fundos.

Após o corte de 5 pontos percentuais na taxa Selic ao longo deste ano, que levou o juro básico para 8,75% anuais, a poupança se tornou competitiva em relação aos fundos. A isenção faz com que a parcela de juros de 6,17% ao ano mais Taxa Referencial (TR) da poupança acabe sendo maior que o retorno da maioria dos fundos de varejo, em que há cobrança de taxa de administração e imposto de renda que pode variar de 15% a 22,5%. Com isso, fundos com taxas de administração acima de 2% perdem para a poupança.

O receio do governo era que essa vantagem da caderneta provocasse uma fuga de recursos dos fundos para a poupança. Para evitar isso, o governo anunciou que tributaria a caderneta e reduziria o imposto sobre os fundos até que a regra entrasse em vigor.

A proposta do governo era tributar as cadernetas com saldo superior a R$ 50 mil a partir de 2010, usando uma fórmula que levaria em conta todos os ganhos do aplicador. O imposto seria calculado na declaração anual. Fortemente criticada por sua complexidade - o imposto variaria também de acordo com a taxa Selic -, o projeto teria de passar pelo Congresso.

Há informações, porém, de que a proposta teria sido engavetada, uma vez que os fundos não estão apresentando resgates muito elevados. O fato de os fundos DI e renda fixa estarem rendendo mais graças à queda dos juros também deu mais tempo para o governo empurrar a questão com a barriga, talvez até o próximo governo. Os bancos também reduziram as aplicações de fundos mais baratos, permitindo o acesso do varejo a carteiras mais competitivas. E o Banco do Brasil chegou a baixar algumas taxas de administração.

Nos bancos, a visão é de que essa captação da poupança não vem de fundos. Segundo Marcos Villanova, diretor de Produtos de Investimento do Bradesco, os fundos DI de varejo do banco também captaram, 1% em julho, elevando o crescimento no ano para 11%. Já em poupança, onde o banco tem um saldo de R$ 40 bilhões, o crescimento era de 1,5% em julho até dia 24. "Tenho certeza de que esse dinheiro não veio de fundos", diz.

O que pode estar ocorrendo, explica, é que sazonalmente, a partir de junho, os trabalhadores começam a ter sobras de dinheiro, pois já pagaram os compromissos de início de ano. "E a pessoa que aplicava em fundos resolveu aplicar agora um pouco em caderneta", diz. Ele observa também que há uma recuperação da economia e do emprego que leva a um aumento da massa salarial e do potencial de poupança dos trabalhadores. "E isso deve continuar aumentando até o fim do ano", diz. (*Do Valor Online)