Título: Aliança com franceses vai além do comércio
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 09/09/2009, Brasil, p. A5

A aliança estratégica entre Brasil e França vai bem além do que indica a antecipação do anúncio sobre a negociação para compra dos caças da FAB, antes esperada somente para outubro. Ela inclui consultas regulares em temas como meio ambiente e as negociações para superação da crise econômica mundial, prevê ações de cooperação em terceiros países e colaboração em ciência e tecnologia. Mas tem um forte caráter comercial e pragmático, de oportunidade para os dois países.

Não é uma aliança contra ninguém, embora, como se viu na rejeição dos caças americanos em favor dos franceses, possa incomodar os Estados Unidos.

A França tem mais facilidade de atuar onde os EUA enfrentam dificuldades políticas: indicado desde maio, o futuro embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, não teve sua nomeação aprovada pelo Congresso americano até agora, por ter se manifestado a favor da redução das barreiras ao etanol brasileiro no mercado americano. Membros do governo brasileiro comentam que, se o embaixador dos EUA tem bloqueada a indicação por uma questão local como a tarifa do etanol, é difícil acreditar que o Congresso aceitaria transferir tecnologia militar sensível no futuro, como promete o governo Barack Obama.

Impulsionado por uma situação política mais favorável aos seus comerciantes de armas, Nicolas Sarkozy pôde aproveitar para a França o projeto brasileiro de enfrentar o sucateamento das Forças Armadas. Além dos caças, os presidentes assinaram um acordo que deve resultar em compras bilionárias de helicopteros, quatro submarinos convencionais e o primeiro submarino nuclear brasileiro, movido a reator nacional. O projeto militar com a França prevê cooperação em outros campos, como no projeto Soldado do Futuro, de equipamento de alta tecnologia para os soldados brasileiros.

Em outros pontos, porém, a relação do Brasil com a França se assemelha a de outras "parcerias estratégicas" do Brasil. Nas articulações e consultas regulares sobre finanças, política e comércio, os franceses se diferenciam pelo apoio explícito à demanda brasileira por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Em outros pontos, porém, a aliança se sujeita às particularidades de cada país. A França apoia a demanda brasileira por uma reforma nas instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, mas é um dos governos que mais se opõem à perda do poder de voto dos europeus em favor de países emergentes, como o Brasil. (SL)