Título: Não tiremos conclusões erradas
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Fonte: Valor Econômico, 16/09/2009, Opinião, p. A11
Se o preço do petróleo estabilizar, acredito que poderemos atravessar a crise financeira a um custo limitado em termos de atividade real." Foi assim que, em 2 de setembro de 2008, Olivier Blanchard, recém-nomeado diretor do Departamento de Pesquisas do Fundo Monetário Internacional (FMI), descreveu as perspectivas futuras. Ele foi rapidamente desmentido.
Poucos economistas à época tinham consciência de quão frágil havia se tornado o sistema financeiro mundial. O colapso do Lehman Brothers, pouco menos de duas semanas depois, e a crise seguinte da gigantesca seguradora AIG transformaram complacência em terror. O sistema financeiro mergulhou no abismo, arrastando a economia consigo.
Um ano depois, que lições devemos tirar desse choque?
Acima de tudo, os verdadeiros seguradores do sistema financeiro são as pessoas que vemos ao mirar o espelho. Segundo o "Relatório Estabilidade Financeira Mundial" de abril de 2009 do FMI, a ajuda total ao sistema financeiro feita por governos e bancos centrais dos EUA, da zona do euro e do Reino Unido somou US$ 8,955 trilhões: US$ 1,950 trilhão em injeção de liquidez, US$ 2,525 trilhões em compras de ativos e US$ 4,480 bilhões em garantias.
Esses números são exatos. A dolorosa verdade é que as rendas dos contribuintes foram colocadas à disposição dos credores do setor financeiro. Quando os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do grupo dos sete principais países desenvolvidos (G-7) reuniram-se em Washington, em outubro passado, decidiram "agir decisivamente e empregar todos os instrumentos disponíveis para apoiar instituições financeiras sistemicamente importantes e evitar seu colapso". Circunstâncias desesperadas; medidas desesperadas.
Uma vez que são as grandes instituições financeiras as que têm maior probabilidade de sofrer colapsos durante uma crise, a ajuda equivaleu a proporcionar garantias governamentais ilimitadas. O que torna a decisão insuportável é que foi, em minha opinião, também correta. Era evidente o risco de colapso em cascata de instituições financeiras boas, ruins e abomináveis. Em vista do que tinha acontecido após o colapso do Lehman, somente idiotas teriam praticado esse experimento. Não fomos tão idiotas.
Assim, a lição aprendida com a falência do Lehman foi exatamente oposta ao que muita gente esperava no dia em que foi anunciada: toda instituição sistemicamente relevante deve ser socorrida numa crise. Essa lição é reforçada pelo atual consenso de que o socorro, amparado em estímulo monetário e fiscal sem precedentes, deu certo: o pânico acabou e a economia mundial está sendo reparada.
Em suma, foi correto deixar o Lehman desmoronar porque isso provocou o desastre. A calamidade, então, impôs ao setor público que solucionasse a crise e ensinou que nunca mais se deve permitir um colapso assim. Se forem essas efetivamente as lições que tiramos, estaremos cometendo enormes erros.
Em primeiro lugar, não podemos tolerar a doutrina segundo a qual instituições sistemicamente importantes são demasiado grandes ou interligadas para que possamos deixá-las ruir em meio a uma crise. Nenhum empreendimento normal que vise lucros pode funcionar sem um risco crível de falência.
Assim, o presidente Barack Obama está certo em defender a "mais ambiciosa reestruturação do sistema financeiro desde a Grande Depressão". O comunicado dos ministros das Finanças e presidentes de Bancos Centrais do Grupo dos Vinte (G-20) descreve a atual agenda para reformas. Até onde vai, é bastante sensata.
Tem que ser possível desconstruir as instituições sem os danos que vimos após o colapso do Lehman. Isso se basearia no que hoje passou a ser chamado "testamento em vida". Um termo melhor seria "eutanásia assistida". Se for impossível, essas instituições devem ser submetidas à mesma regulamentação aplicada a concessionárias de serviços públicos.
O segundo maior erro é retornar à velha doutrina segundo a qual é melhor fazer a limpeza após uma crise do que realizar ações preventivas. As autoridades de bancos centrais podem argumentar que se conseguimos sobreviver a uma crise tão gigantesca, não são necessárias mudanças na ortodoxia política.
Isso seria um erro enorme, como argumenta William White, ex-economista-chefe do Banco para Compensações Internacionais (BIS), em uma análise instigante. White, um dos poucos economistas no setor não privado a advertir para a aproximação de uma crise, argumenta que a abordagem "macroprudencial", agora cada vez mais aceita, não pode basear-se apenas em regulamentação. É quase impossível que tal regulamentação se contraponha aos poderosos incentivos à geração de crédito resultante de políticas monetárias expansionistas. Por isso, argumenta ele, "aperto preventivo" deveria substituir "alívio preventivo". Se reexaminarmos as últimas duas décadas de esforços cada vez mais desesperados de limpezas pós-crises, o descortino dessa abordagem de dupla precaução parecerá óbvia.
O terceiro grande erro é ainda mais imediato: assumir que já estamos bem avançados no caminho de uma saudável recuperação. O pânico financeiro, de fato, já passou, como deveria, em vista da escala das garantias governamentais. Os riscos econômicos, não.
A recuperação foi impulsionada pelo socorro ao sistema financeiro e por políticas fiscais e monetárias extraordinárias, especialmente em países com a mais alta alavancagem no setor privado. Por boa razão, os setores privados de tais países provavelmente pouparão mais e pagarão suas dívidas por muitos anos. Isso, por sua vez, necessita, agora, uma grande reversão no balanço entre oferta e demanda em economias dependentes de exportações.
Blanchard definiu a agenda macroeconômica pós-crise em recente artigo. Em suas palavras, precisamos administrar delicadas "ações de reequilíbrio": primeiro, "mais gastos privados e menos gastos públicos"; segundo, "reequilíbrio, entre países, da demanda agregada". Até que ambos estejam equacionados, a recuperação estará apoiada em areia movediça.
Permitir o colapso do Lehman não foi nosso maior erro. O maior foi permitir que a economia e o sistema financeiro ficassem tão vulneráveis. Na mesma medida, o último ano não recuperou a saúde do sistema financeiro ou da economia. Nós evitamos o pior. Isso é bom. Mas insuficiente.
Martin Wolf é colunista do FT.