Título: Desafio é elevar gasto sem mais dívida
Autor: Dickie , Mure
Fonte: Valor Econômico, 17/09/2009, Internacional, p. A12

Hirohisa Fujii, o novo ministro das Finanças do Japão, deverá se valer da sua experiência de duas décadas no Ministério das Finanças para tentar arrebatar o controle orçamentário dos burocratas e bancar as promessas de seu partido sem inflar a dívida pública.

Fujii, de 77 anos, já criou problemas antes de o chefe de Gabinete, Hirofumi Hirano, ter anunciado a sua nomeação ontem, ao dizer que não apoia um "iene fraco". Os comentários provocaram a disparada da moeda à sua mais alta cotação em sete meses ante o dólar.

O Partido Democrata do Japão (PDJ), de Yukio Hatoyama, assumiu o governo pela primeira vez ontem, depois de vencer uma eleição prometendo apoiar famílias esgotadas por duas décadas de estagnação econômica. O maior desafio de Fujii será convencer investidores de que poderá manter essas promessas, que vão de subvenções para assistência à infância até a abolição de pedágios nas estradas, sem estourar o maior serviço de dívida no mundo rico.

"As condições fiscais do Japão estão se deteriorando consideravelmente e teme-se pelo que acontecerá com a dívida pública do país, dependendo de quem for o ministro das Finanças", disse Masamichi Adachi, economista sênior no JPMorgan Chase, em Tóquio. "Nesse sentido, Fujii é uma boa escolha, já que ele passa uma impressão de que administrará a dívida de forma apropriada."

O iene se fortaleceu, indo de 91,05 (por um dólar) anteontem para 90,16 ontem em Tóquio. A cotação chegou a bater em 90,13 ienes, a mais alta desde 12 de fevereiro, depois de Fujii ter dito que se opõe à intervenção do governo nos mercados cambiais.

Os comentários de Fujii sinalizam que o governo de Hatoyama preservará a política vigente desde 2004, atual, de se manter fora dos mercados cambiais. Analistas dizem que essa postura será testada se o iene se valorizar mais, exercendo pressão sobre as autoridades para que enfraqueçam a moeda, visando proteger a economia japonesa, dependente de exportações.

"Apesar de o PDJ estar mostrando falta de entusiasmo em intervir, eles provavelmente terão de ser mais realistas, agora que estão no poder", disse Masahide Tanaka, estrategista sênior no Mizuho Financial.

Ao contrário do seu antecessor, Kaoru Yosano, Fujii não acumulará uma segunda pasta, como ministro para Regulamentação do Sistema Bancário. Shizuka Kamei, lider do Novo Partido do Povo, parceiro na coalizão com o PDJ, disse ontem que aceitou o convite para se tornar ministro dos Serviços Financeiros.

O PDJ conquistou uma vitória esmagadora em 30 de agosto, destronando o Partido Liberal Democrático (PLD), que, exceto por 10 meses, deteve o poder desde 1955.

Fujii foi deputado do PLD de 1977 até deixar o partido, em 1993, para participar na única coalizão que já derrotou o PLD antes do governo atual. Ele serviu como ministro das Finanças naquele governo, que durou apenas 10 meses, e trabalhou com autoridades do Tesouro [dos EUA], como o atual secretário, Timothy Geithner, e com o ex-secretário Lawrence Summers.

Antes de entrar na política, Fujii passou 21 anos no Ministério das Finanças, onde ascendeu à posição de encarregado de Orçamento. Hatoyama pediu para Fujii não se retirar da política antes das eleições de 30 de agosto, motivando especulações de que ele assumiria a pasta das Finanças.

Seu tema mais imediato será elaborar o orçamento do próximo ano, um processo que está atrasado porque o PDJ havia prometido assumir o controle do processo, retirando-o das mãos dos burocratas para evitar gastos que considera desperdícios.

"A elaboração do orçamento será o primeiro teste real para o PDJ", disse Soichi Okuda, economista chefe do Instituto de Pesquisas Sumitomo, em Tóquio. "Se eles conseguirem arrebatar o controle do orçamento das mãos dos burocratas, como prometeram, terão condições de reduzir desperdícios. Caso contrário, precisarão recorrer à venda de títulos de dívida".

O PDJ quer reduzir o papel da burocracia na determinação das políticas públicas. Economistas dizem que o histórico de Fujii ajudará o partido a cumprir aquela promessa sem indispor o ministério contra o governo.

"É bem provável que ele consiga controlar os burocratas e provavelmente não abalará o mercado, tomando alguma atitude extremada", disse Nobuto Yamazaki, gestor executivo de fundos no DIAM Asset Management em Tóquio.

Os títulos da dívida do governo japonês pouco mudaram desde as eleições, com as obrigações de 10 anos rendendo 1,32% pela cotação de ontem em Tóquio, ante 1,315%, antes da votação de 30 de agosto.

O novo partido no poder também precisará lidar com desemprego e deflação recordes, que ameaçam sabotar a frágil recuperação da pior recessão do país no período pós-guerra. O índice de desempregados aumentou para 5,7% em julho, e os preços ao consumidor despencaram, para uma inédita deflação de 2,2%.

Racionalizar os gastos e encontrar dinheiro para todas as promessas eleitorais de Hatoyama não será fácil. O partido planeja aumentar os gastos com assistência à infância e com subsídios ao ensino, reduzir impostos que incidem sobre a gasolina e eliminar pedágios nas estradas. Para apoiar os trabalhadores, o partido promete destinar 100 mil ienes (US$ 1,1 mil) mensais às pessoas que buscam emprego que estejam inscritas em programas de treinamento, elevar o salário mínimo e ampliar o seguro desemprego.

Hatoyama quer fazer estas coisas, ao mesmo tempo mantendo as novas vendas de títulos dentro do limite de 44,1 trilhões de ienes, quase um décimo do PIB, determinado para o ano findo em março de 2010. O PDJ pretende aproveitar recursos não utilizados do orçamento extra, de 13,9 trilhões de ienes, do ex-premiê Taro Aso, em vez de vender novos títulos de dívida.

Fujii disse em 3 de setembro que o governo que está assumindo poderá remanejar até 5 trilhões de ienes em gastos destinados a incentivos atualmente destinados a programas "desperdiçadores".

Mesmo se o PDJ conseguir reunir verbas suficientes neste ano, a magnitude dos seus programas dificultará ainda mais elaborar orçamentos subseqüentes, na opinião de economistas.

"Independentemente de quem for o ministro das Finanças, o partido conseguirá administrar a situação no primeiro ano, mas será impossível não aumentar as vendas de novos títulos para além de 2011", disse Hiroaki Muto, economista sênior no Sumitomo Mitsui Asset Management em Tóquio. "No fim, eles serão obrigados a escolher entre elevar o imposto sobre vendas ou testemunhar o colapso das finanças públicas".