Título: Por que a China precisa se esforçar
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Fonte: Valor Econômico, 23/09/2009, Opinião, p. A15

A China teve uma crise boa. Isso ficou óbvio na versão do Fórum Econômico Mundial conhecida como a "Davos de verão", há menos de duas semanas, em Dalian. A confiança chinesa era palpável. A ansiedade, contudo, também. O gigante sobreviveu ao choque. Sua recuperação, porém, foi puxada pelo aumento no crédito e nos investimentos em capital fixo. A mais longo prazo, a China precisará reequilibrar sua economia, aumentando o consumo. Chegou a hora de os chineses se divertirem mais. Como isso poderia ser desagradável?

A pessoa que melhor capturou tanto essa confiança como incerteza foi o primeiro-ministro do país, Wen Jiabao. No encontro, disse que essa "crise financeira mundial sem precedentes cobrou um preço pesado da economia chinesa". "Ainda assim, nos levantamos contra os desafios e lidamos com as dificuldades com total confiança", afirmou. Jiabao, no entanto, também admitiu que a "estabilização e recuperação da economia chinesa ainda não são firmes, sólidas e equilibradas".

Os dados que chegam da China indicam, de fato, uma recuperação poderosa em andamento. No primeiro semestre do ano, destacou o primeiro-ministro, o Produto Interno Bruto (PIB) expandiu-se 7,1%. As pesquisas de setembro apontam que a economia chinesa crescerá 8,3% neste ano. O gigante asiático deverá tornar-se a segunda maior economia do mundo em 2010, mesmo a preços de mercado.

De acordo com a Economist Intelligence Unit, a demanda doméstica poderia expandir-se até 11,5% em termos reais em 2009. Tal aumento na demanda interna chinesa é exatamente o que se precisava. A previsão é de que o consumo das famílias na China também cresça, 9,3%. Como usual, entretanto, a locomotiva são os investimentos fixos reais. Estima-se elevação de 14,8% neste ano. Caso isso ocorra, terão aumentado mais do que o PIB em nove dos últimos dez anos. Essa taxa crescente de investimento em relação ao PIB, a partir de um patamar que já era elevado, não é uma força, mas sim uma fraqueza. Sugere retornos sobre o capital em queda. Ameaça criar um excesso de capacidade cada vez maior. Além disso, quando os índices de crescimento enfim começarem a cair, o colapso dos investimentos abrirá um grande buraco na demanda.

A forte dependência em relação aos investimentos não é o único risco pela frente. Também estão as expansões no crédito e na base monetária. Muitos acreditam que isso está destinado a causar outra elevação das dívidas de difícil recuperação e das bolhas de ativos desestabilizadoras. O salto na base monetária em relação ao PIB também é preocupante, vindo depois de um longo período de estabilidade.

A China, ao que parece, conseguiu salvar-se. Será que também vem salvando o mundo?

O acontecimento mais encorajador é o encolhimento dos superávits comercial e em conta corrente do país. Exportações e importações caíram de forma acentuada, mas a queda maior foi das exportações. Ainda assim, o comércio da China vem mostrando-se tão volátil (assim como o de todos os outros países), que é difícil ter certeza de que isso represente um ponto de virada. Muito dependerá da natureza e do ritmo da recuperação mundial. Além disso, o país continuará tendo superávit substancial em conta corrente e acumulando ainda mais reservas internacionais, apesar de estas já serem muito maiores do que a China precisa para fins de segurança. Afinal, as reservas chegaram a US$ 2,132 trilhões (mais de 40% do PIB) em junho.

Isso seria equivalente aos Estados Unidos terem reservas oficiais de US$ 6 trilhões, denominadas em moedas de outros países. Não é de surpreender que uma exposição desse tamanho deixe o governo chinês tenso. Porém, ninguém pediu para o governo chinês fazer isso. Ao contrário, as autoridades monetárias dos EUA aconselharam de forma consistente (e sensata) para que fizessem o oposto. Tendo feito o que eu considero um imenso equívoco, o governo chinês não pode esperar que alguém os salve das consequências desse erro.

Uma valorização significativa da moeda chinesa é algo inevitável e desejável nos próximos anos. Quanto mais as autoridades chinesas a combaterem, maiores serão suas perdas (e o sofrimento com o ajuste). O que eles precisam fazer é limitar essas perdas, deixando de acumular ainda mais reservas. Como Morris Goldstein e Nicholas Lardy, do Peterson Institute for International Economics, argumentam de forma excelente em recente estudo, as políticas requeridas para isso também são necessárias para reequilibrar a economia no longo prazo*.

É importante entender o nível de distorção da economia da China atualmente: em 2007, o consumo pessoal era de apenas 35% do PIB. Enquanto isso, a China investia 11% do PIB em ativos externos de baixo rendimento, graças a seu superávit em conta corrente. Lembrem-se do grau de pobreza que ainda atinge milhões de chineses. Então, levem em consideração que a transferência líquida de recursos ao exterior foi equivalente a mais de 30% do consumo pessoal.

Isso é, seguramente, indefensável. O primeiro-ministro poderia até concordar. "Deveríamos focar-nos em reestruturar a economia e fazer esforços maiores para incrementar o papel da demanda doméstica, especialmente do consumo final, no estímulo ao crescimento", ressaltou Jiabao, em Dalian. Uma valorização da taxa de câmbio real - a melhor forma para isso seria por meio de uma apreciação da taxa de câmbio nominal - ajudaria. Uma das distorções mais importantes do atual regime é a necessidade de manter as taxas de juros baixas, para restringir a entrada de capitais. Isso transfere quantias maciças de renda das famílias para os lucros empresariais.

Infelizmente, ainda está incerto se os parceiros da China levantarão a questão da política cambial em Pittsburgh, na reunião de cúpula do G-20. Os chineses provavelmente são fortes o suficiente para impedi-lo. O presidente do país, Hu Jintao, contudo, certamente reclamará sobre o protecionismo dos EUA. Concordo com ele. Concordaria ainda mais, entretanto, se as intervenções cambiais da China, combinadas com a esterilização de seus efeitos monetários naturais, não representassem um subsídio tão maciço a suas exportações.

A grande questão para a China é que, gostando-se ou não (e está perfeitamente claro, mesmo para visitantes casuais, que muitos chineses, veementemente, não gostam), o aumento explosivo nos superávits comercial e em conta corrente visto em meados dos anos 2000 é um evento irreproduzível. O reequilíbrio de curto prazo visto neste ano, via uma imensa expansão do crédito e aumento dos investimentos em capital fixo, é um recurso temporário. Isso teria de levar a um reequilíbrio da economia chinesa em direção ao consumo. É de interesse da China. Também está no interesse de uma economia mundial mais bem equilibrada. Se a exitosa reação à crise vista neste ano levar nessa direção, a crise trará um grande benefício de longo prazo.

"É horrível", como gostam de dizer em Washington nestes dias, "desperdiçar uma crise". Pode soar mal. Mas estão certos - e não apenas para os EUA.

Martin Wolf é colunista do FT e escreve às quartas-feiras. * The Future of China´s Exchange Rate Policy (O futuro da política cambial da China, em inglês)