Título: Consolidação será difícil de ser atingida no médio prazo
Autor: Durão , Vera Saavedra
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2009, Empresas, p. B7

O tema da consolidação do setor siderúrgico brasileiro, retomado pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, em entrevista ao Valor, foi considerada de difícil execução por pessoas do setor. As usinas do país preferiram não comentar as declarações de Coutinho. Usiminas e Gerdau optaram pelo silêncio e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) não retornou as ligações. Para uma fonte do setor siderúrgico, que não quis se identificar, a proposta de Coutinho é de difícil execução no médio prazo, pois nenhuma das empresas que atua hoje no cenário nacional precisa urgentemente de dinheiro e todos os atuais controladores querem manter suas empresas.

A ideia de se criar uma grande usina global brasileira não é nova e de vez em quando é retomada e quase sempre pelo BNDES, ressaltam consultores das grandes usinas do país. Nos anos 90, logo após a privatização da Usiminas e CSN, o BNDES foi o primeiro a levantar essa bandeira e apoiou uma tentativa de fusão entre as duas empresas, mas o plano não saiu do papel. Ainda no final do século passado, depois de um esforço de fusão da Usiminas com a Acesita, esta última foi comprada pela Arcelor, hoje ArcelorMittal. Pouco depois, a Vale vendeu suas participações na Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) também para a Arcelor.

Entre 2001 e 2002 houve uma proposta de compra da CSN pelo grupo Gerdau, que também não evoluiu. A proposta não deu certo porque o grupo gaúcho queria ter o controle do negócio, contou um interlocutor próximo das duas companhias. O que sempre tem emperrado as tentativas de compra é a definição do controle da futura empresa, afirmou a fonte. "Ninguém quer abrir mão do controle".

Além da ambição dos controladores, as siderúrgicas brasileiras têm políticas e culturas de gestão muito diversas. A Gerdau é um grupo familiar, a CSN é centralizada em seu controlador Benjamin Steinbruch e a Usiminas divide sua gestão entre seus sócios controladores: a japonesa Nippon Steel, a Camargo Corrêia e a Votorantim. "Quem vai convencer a Nippon Steel, segunda maior siderúrgica do mundo, a fundir a Usiminas com outra companhia?", indagam consultores do setor.

Hoje, no país, o maior produtor de aço é uma siderúrgica estrangeira, a ArcelorMittal, que sozinha responde por 11 milhões de toneladas de um total de 33 milhões de toneladas de aço produzidas em 2008. A Usiminas fabrica 9 milhões de toneladas por ano e a CSN, 6 milhões de toneladas/ano. Se as duas se fundissem somariam 15 milhões de toneladas anuais, volume bem aquém para uma siderúrgica global, cuja produção mínima é de 30 milhões de toneladas/ano.

Marco Polo Mello Lopes, vice-presidente executivo do Instituto Aço Brasil, ex-IBS, disse que o presidente do BNDES está equivocado em seu enfoque sobre consolidação. "Não é uma questão só de vontade. Não faz sentido produzir e consolidar sem ter mercado interno", diz o executivo, citando uma frase de Lakshimi Mittal, o indiano dono da Arcelor Mittal, a maior siderúrgica do mundo: "Só produzo o que eu posso vender".

Para Mello Lopes, este é o grande desafio que a indústria do aço tem hoje no Brasil. "Precisamos fazer crescer o consumo per capita do produto para produzir mais e consolidar o setor." Ele lembra que há 10 anos o consumo per capita de aço no Brasil não sai do patamar de 100 quilos. Em 2008, subiu para 115 quilos por habitante, mas este ano vai recuar. "A grande preocupação da siderurgia brasileira é o mercado interno, por isso não entendemos a colocação do BNDES."

O executivo lamentou que Coutinho tenha se esquecido do grupo Gerdau, hoje um grupo global, com capacidade de 26 milhões de toneladas de aço anuais em todas as suas operações no Brasil e no exterior. A Gerdau é a 13ª siderúrgica no ranking mundial de 2008 do WorldSteel.

Para ele, é impossível comparar o Brasil com a China, o maior produtor de aço do mundo. Em 2008, a China produziu 500,5 milhões de toneladas de aço e consumiu 440 milhões. "O Brasil produz 35 milhões de toneladas, com capacidade para 41 milhões e consumo doméstico de 24 milhões. Tal ambiente não favorece consolidações internas."

Ontem foi a vez do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, voltar ao assunto. Ele disse que o governo deseja que a Vale torne-se uma grande siderúrgica para concorrer com a ArcelorMittal.

"A Vale, a maior produtora mundial de minério de ferro, precisa abrir caminho para que o Brasil se torne um dos grandes exportadores de aços laminados", disse Lobão. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pressionou a Vale a construir usinas siderúrgicas para exportar produtos de maior valor agregado do que o minério de ferro e gerar mais empregos. (Com Bloomberg, de São Paulo)