Título: Proposta americana contraria emergente
Autor: Balthazar , Ricardo
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2009, Internacional, p. A11

Diferenças existentes entre países avançados e nações em desenvolvimento vão complicar os esforços que os líderes do Grupo dos 20 pretendem fazer nesta semana para reorganizar a economia mundial e fortalecer a rara unidade política alcançada pelo grupo no combate à crise financeira.

Os Estados Unidos propuseram aos países do G-20 a discussão de um pacto que obrigaria todos a se comprometer com mudanças em suas políticas domésticas para assegurar que a economia mundial volte a crescer de forma sustentável, sem recriar desequilíbrios como os que contribuíram para fomentar a crise.

Existe um razoável grau de consenso na comunidade internacional sobre a necessidade dessas reformas, mas a China e outros países emergentes vêm a proposta americana com desconfiança e já indicaram que vão resistir à proposta, por temer que ela leve a uma intromissão maior dos países ricos na maneira como eles administram suas economias.

Os americanos gostariam que cada país assumisse compromissos bastante específicos. Os EUA prometeriam poupar mais e controlar seu déficit fiscal, uma das principais fontes do seu endividamento. A China estimularia o consumo doméstico e reduziria sua dependência do mercado externo. A Europa e o Japão fariam mudanças em suas leis trabalhistas.

O pacto proposto pelos americanos daria ao Fundo Monetário Internacional (FMI) um papel central. A instituição teria a missão de monitorar o cumprimento dos compromissos assumidos e de publicar relatórios semestrais com sua avaliação, o que ampliaria a pressão para que os participantes do pacto reformassem suas políticas domésticas.

O principal assessor da Casa Branca para assuntos econômicos internacionais, Michael Froman, disse na semana passada que a discussão será uma das prioridades dos EUA nesta semana e afirmou que qualquer acordo terá que incluir "um processo para que cada um possa ser responsabilizado" se não cumprir o que for combinado.

A proposta dos EUA conta com a simpatia da Europa e é muito parecida com uma iniciativa patrocinada pelo Fundo antes da crise, um processo de consultas multilaterais que por um ano pôs na mesma mesa representantes dos EUA, da China, da Europa, do Japão e da Arábia Saudita para debater os desequilíbrios na economia global.

Em fevereiro de 2007, o FMI publicou um documento em que os cinco participantes concordaram com a necessidade de várias reformas como as que os EUA querem ver pactuadas agora no G-20. Mas o processo iniciado pelo Fundo não avançou e seus resultados caíram no esquecimento com a crise.

Alguns dos desequilíbrios que preocupavam o FMI sofreram ajustes com a crise. A recessão tem feito os EUA pouparem mais e reduziu sua dependência de capital externo. A retração da demanda mundial diminuiu o pujante superávit comercial da China. Mas a recuperação da economia mundial nos últimos meses trouxe de volta a preocupação com o tema.

Muitos economistas acham que esses desequilíbrios macroeconômicos contribuíram para a crise de maneira significativa, aumentando a liquidez no sistema financeiro e criando condições favoráveis à especulação e à expansão descontrolada da oferta de crédito.

A China teme os obstáculos que esse debate pode criar para a continuidade do seu modelo de desenvolvimento. Autoridades do país tem indicado que preferem ver instituições como o FMI e o G-20 focadas em problemas de outra natureza, como a necessidade de atacar diretamente a indisciplina do sistema financeiro.

A reunião de cúpula do G-20 nesta semana será a terceira desde o início da crise no ano passado. O G-20 é formado pelos países mais ricos do mundo e um grupo de potências emergentes que inclui a China e o Brasil. Os líderes se encontrarão na quinta e na sexta-feira, em Pittsburg, nos EUA.

A reunião deverá sacramentar um compromisso em favor da manutenção das políticas de estímulo econômico lançadas para combater a crise e propor novas diretrizes para a reforma da regulação do sistema financeiro, com base em sugestões que serão apresentadas pelo Conselho de Estabilidade Financeira, um grupo internacional de reguladores.

A impressão de que o pior da crise passou poderá reduzir os incentivos que o grupo teve para buscar consensos nas reuniões anteriores. "Interesses políticos domésticos e questões competitivas estão ganhando importância, tornando difícil a coordenação de políticas", diz Ted Truman, um ex-funcionário do Tesouro americano hoje no Instituto Peterson para a Economia Internacional.

Países emergentes como a China e o Brasil pretendem usar a reunião desta semana para cobrar dos países mais avançados a aceleração das reformas em discussão para ampliar o poder dos países em desenvolvimento no FMI e no Banco Mundial. Os EUA são a favor e a Europa não abre mão da influência que tem nessas instituições.