Título: Valor menor deve buscar mais as cadernetas
Autor: Pavini , Angelo
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2009, EU & Investimentos, p. D2

O governo ainda precisa enviar para o Congresso a proposta de tributação de 22,5% sobre os juros das cadernetas de poupança acima de R$ 50 mil para que ela possa ser aprovada este ano e valer para o ano que vem. Mas já é possível estimar o impacto da medida. A expectativa é de que aqueles que possuem menos de R$ 50 mil prefiram a caderneta em lugar dos fundos de investimento, enquanto aqueles com valores maiores em poupança devem avaliar a oportunidade em fundos, diz o professor de matemática financeira José Dutra Vieira Sobrinho.

Dutra fez uma série de simulações para avaliar o impacto dos 22,5% de imposto sobre o rendimento da poupança dos valores acima de R$ 50 mil. Em uma delas, considerou o juro básico Selic atual, de 8,75% ao ano, que significaria um rendimento antes do imposto para as cadernetas de 0,5141% ao mês, equivalente ao juro de 0,5% mais a Taxa Referencial (TR). Em outra, o juro é inferior a 8,75%, e a caderneta rende apenas os juros.

Nas contas de Dutra, com o juro atual, os valores abaixo de R$ 50 mil só ganhariam mais que a caderneta se fossem aplicados em um fundo de investimento com taxa de administração inferior a 1% ao ano e pelo prazo de dois anos, quando a aplicação pagaria a alíquota mais baixa de imposto, de 15%. Já com juros abaixo de 8,5%, o rendimento da poupança, de 0,5% líquido de impostos, seria imbatível em qualquer situação para valores menores. As simulações não levam em conta que os fundos podem render mais que a taxa Selic, o que depende do gestor.

A conclusão de Dutra é que, mantida essa situação, haverá uma migração de pequenos investidores de fundos para a caderneta. "A sorte do governo é que milhões de aplicadores em fundos com valores de até R$ 20 mil ou R$ 50 mil, ainda não têm consciência de que estão perdendo para a poupança, e por esta razão, a migração tem sido muito pequena", afirma Dutra.

Neste mês, a poupança captou até dia 14 R$ 3,357 bilhões, para R$ 2,081 bilhões no mesmo período do mês passado. De maio para cá, a caderneta já captou R$ 11,860 bilhões. Já os fundos DI perdem R$ 6,6 bilhões no ano. "Se a taxa de juros continuar caindo, a vantagem da poupança para esses valores menores vai se ampliar ainda mais", diz.

Analistas lembram, porém, que a troca de fundos pela poupança depende não só do rendimento, mas também da disponibilidade do investidor de sacar apenas uma vez por mês. Os fundos mantêm a vantagem da liquidez e da rentabilidade diárias, que não existem na caderneta.

Outro movimento será dos que têm mais de R$ 50 mil em poupança. Eles poderão sair ou reduzir a aplicação e partir para outras opções, avalia Dutra. Um aplicador com R$ 100 mil em poupança receberá líquido 0,4579% ao mês pelo juro atual, rendimento inferior ao de um fundo com taxa de administração de 3% ao ano para aplicações acima de dois anos, pelos cálculos do Valor. À medida que o valor sobe, o impacto da alíquota da poupança é maior. Para R$ 500 mil, o investidor receberá 0,4129%, o que tornaria interessante um fundo com taxa de administração de 3,5% ao ano para dois anos.

Dutra lembra que, apesar de representarem 1% das contas, esses correntistas representam 43% do total dos recursos aplicados nessa modalidade. Uma movimentação desses aplicadores seria também ruim para o mercado de financiamento imobiliário, que depende hoje dos recursos da caderneta. Dutra acredita que, apesar da tributação, em algum momento o governo terá de mexer mesmo nos juros de 0,5% da poupança.